Leões, afrodescendentes e “carnívoros”


Cecil, o leão, o rei da savana, o grande predador africano, o felino coroado mais famoso do Zimbábue, símbolo de uma reserva natural humana – e mais recentemente também da nossa mesquinhez e covardia. Gostaria muito de explicar os motivos pelos quais um homem rico decide viajar pelo mundo tirando vidas de animais que nunca lhe ofereceram risco, para depois decaptá-los e usar suas cabeças como souvenirs do “memorável” momento em que ele apertou um gatilho – protegido de qualquer ameaça. Felizmente não sei dar razão a uma crueldade dessas, nem tampouco entendo a lógica ou os anseios emocionais que viabilizam esse tipo de postura perante outros seres vivos, portanto, tentarei falar apenas da comoção compartilhada por essa notícia.

Morte e assassinatos fazem parte do cotidiano da maior parte dos noticiários pelo mundo, porém, nem toda vida ceifada gera tanta compaixão quanto a de animais domésticos ou selvagens. Epidemias na África ou o genocídio da juventude negra no Brasil quase não geram revolta ou compaixão, pois fazem parte da narrativa diária que visa naturalizar essas mortes como acontecimentos infelizes, porém inevitáveis. A facilidade com que tantos justificam atos de extermínio é tão ridícula, que nos últimos dias uma outra caçadora, pega posando sobre o cadáver de uma girafa, alegou que sua morte violenta é desculpável pois girafas representam uma ameaça genuína à vida de seres humanos.

Tamanha desumanização é herança da época quando o cessar de uma vida negra – por esgotamento, doença ou punição excessiva – não se tratava de uma perda humana digna de pena, mas de um prejuízo. Quando a notícia de um “negrinho” morto no tronco se confirmava, a lástima maior nunca foi por seus possíveis amigos e familiares, mas pelo investimento perdido. A necessidade de, invariavelmente, repor uma mercadoria que precisaria ser substituída a fim de que o lucrativo ciclo de exploração seja mantido. Sendo assim, diferentemente de um animal de estimação ou de uma fera em extinção, vidas negras sempre foram substituíveis, logo, jamais foi necessário chorar pelo sangue derramado. Suas reposições podiam ser feitas por encomenda – indo novamente ao mercado ou recomeçando o ciclo de violência em algum útero preto. O dilema maior dos brancos – e embraquecidos – sempre foi a pressa em dar o assunto por encerrado.

Mais de um século depois, negros podem ter deixado de ser gado, mas a lógica persiste. As mesmas pessoas que se indignam com o costume asiático de se comer carne de cachorro, costumam ser as mesmas que são indiferentes a crianças morando na rua ou sendo baleadas na porta de casa por policiais. Apesar de se pretenderem “defensores” de seus amigos caninos ou felinos, o direito à vida que proclamam defender raramente se estende a tudo e a todos. Para esses, a vida encurtada de pessoas e pets próximos é tragédia, já a dos demais seres é drama ou churrasco.

Essa empatia seletiva só é possível devido a cultura. É ela que nos faz reconhecer valor inestimável em algumas formas de vida em detrimento de outras. É ela que nos permite relevar a precariedade material de alguns seres vivos e clamar pela prosperidade e conforto de outras. É graças a cultura, também, que nem toda vida é digna de luta ou protesto. Que algumas mortes valem manchete enquanto outras rodapé.

Então, embora cada indivíduo saiba melhor que indignações deve sentir, toda vez que exteriorizamos o pesar por uma perda como a de Cecil e nos calamos frente o sistêmico extermínio de outras não estamos expressando genuinamente toda nossa compaixão, mas, sim, a seletividade da nossa apatia. Deixando bem evidente que nem todo ato de vileza humana é repreensível socialmente, apenas os feitos contra quem se acredita mais igual/melhor do que outros. Por isso que, numa cultura que comercializa e lucra com a exploração de tantas formas de vida, não é lá tão difícil entender quais espécies de animais merecem viver mais do que outras, assim como não é segredo pra ninguém sobre qual fenótipo humano toleramos mais torturas e tiros. Nossa sociedade teme os homens negros, mas são os brancos os constantes responsáveis pelas maiores guerras e genocídios das quais temos notícia.

É por toda essa incoerência sobre o valor que damos coletivamente à vida que veg(etari)anos contestam quando pessoas – que enchem a boca de sangue para se afirmarem “carnívoras” – decidem advogar pela salvação de cachorros nas cozinhas chinesas; ou que leva ativistas negros a achar necessária a criação de uma campanha tal qual a #BlackLivesMatter (#VidasNegrasTêmValor).

Se toda forma de vida tem valor, então por que as lágrimas de estimação são tão frequentemente brancas e humanas? Possivelmente porque, ao encontrar justificativa em algumas mortes, essas pessoas reconheçam uma verdade que, no fundo, todos conhecemos, a de que uma vida é tão importante quantos os títulos associados a ela. Ou seja, a injusta realidade de que não há nada de universal no valor que damos à vida, mas sim um profundo e egoísta interesse em preservar privilegiar quem está no topo.

Previous O Espelho de Cassandra, Bernard Werber
Next Mal-entendido em Moscou, de Simone de Beauvoir

3 Comments

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *