O Espelho de Cassandra, Bernard Werber


Quando pensei em ler O Espelho de Cassandra, de Bernard Werber e publicado pela Bertrand Brasil, imaginei um livro voltado para o gênero fantasia, por conta de, na sinopse, ter a referência ao mito de Cassandra, a profetisa de catástrofes em quem ninguém acreditava. Ela, que previu a queda da cidade de Tróia, onde era princesa, sendo filha do Rei Príamo.

No entanto, fui apresentado a outra coisa. Ao longo de suas 560 páginas, Werber nos mostra a caminhada de Cassandra em busca de quem ela realmente é. Com 17 anos, ela que morava no colégio interno Andorinhas, só lembra-se de sua vida a partir dos 13 anos, quando foi a única sobrevivente de um atentado que matou seus pais, quando passeavam pelo Egito, a fim de assistirem a apresentação da Ópera Nabuco.

Em sua busca, ela acaba indo parar em meio aos mendigos de um lixão de Paris, pessoas que odeiam os burgueses e vivem em uma sociedade, que poderíamos julgar, anarquista e que nos lembra também e muito um santuário, um templo em que as coisas acontecem em outro tempo e de outra forma. É em meio a esses que, principalmente, ela realizará a difícil tarefa de se lembrar de sua vida passada e do por que consegue ter visões do futuro.

De início, não consegui ter muita empatia por Cassandra e menos ainda pelos moradores de Redenção, a vila construída em meio aos dejetos dos parisienses. Cassandra é lacônica e os mendigos são repetitivos em seus discursos de ódio aos burgueses e na exaltação de si. Outro problema foi os estereótipos na construção de suas características. Temos o “viking” beberrão e bruto, a italiana voluptuosa (mesmo que já idosa) e ao mesmo tempo pregadora da moral no que se refere ao sexo, o negro curandeiro e o coreano que entende tudo de informática. Tudo senso comum, do que geralmente imaginamos pessoas vindas de onde vem ou constituídas fisicamente como são.

Contudo, as coisas melhoram, quando um quê de ficção científica e política vão se imiscuindo ainda mais na narrativa e entrelaçando com a jornada de Cassandra, a moça dos olhos grandes e cinzentos. Acostume-se com algumas descrições e, principalmente, com essa forma de se referir à garota, pois ela será corriqueira, o que também enche bastante a paciência.

E, ao entrelaçar política e ficção científica, a retomada ao mito de Cassandra torna-se ainda mais evidente. A Cassandra contemporânea tenta alertar Paris, a cidade, dos perigos que ela corre ao continuar em determinado caminho, do mesmo jeito que a Cassandra mítica tentou fazer com o irmão, na ida dele para a cidade grega governada por Menelau.

Para mim, outro fator que foi essencial para não me fazer detestar o livro é o recurso da etimologia. A protagonista é fascinada por palavras e suas origens, muitas vezes explicando em notas mentais, o que significa determinados termos.

Assim, vamos compreendendo que a palavra tem poder, que ela aprisiona e configura o mundo. Ela diz o que as coisas e as pessoas são.  A palavra cria as conexões para que as coisas aconteçam, para que haja a possibilidade.

E ao descobrir, quem é e como viveu antes e todas as outras coisas de sua vida, que Cassandra passa a compreender a sua função como vidente, a de criar uma nova possibilidade de futuro. Para si e para todos os que estão com ela.

Por fim, embora com coisas muito interessantes, o livro não me pareceu ser dos mais divertidos e confesso que as primeiras páginas (algo em torno de umas 80) foram bem difíceis de serem vencidas.

Ainda assim, o livro ganhou 04 estrelas na minha avaliação do Skoob, por conta da sacada política, de ficção científica e de trabalho com etimologia.

Quer saber mais do que eu ando lendo? Você pode ler mais resenhas no meu blog, o Folhetim Felino, ou acompanhar comentários e sugestões de leituras no meu canal do YouTube.

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