Marieta e a fonte da desesperança


Domingo passado, numa transmissão ao vivo, depois da fala pessimista sore os rumos do país proferidas pelo apresentador de TV mais bem pago do Brasil, uma atriz consagrada declarou ter esperança no futuro do país desde que as desigualdade sociais sejam diminuídas. Um esforço com pouco menos de duas décadas de história e duramente combatido pelos que sempre se beneficiaram com as injustiças sociais e a desinformação do povo.

Como era de se esperar, vários telespectadores descontentes se pronunciaram nas redes sociais contestando a declaração da, até então, reverenciada atriz. Dentre os desaprovadores uma colega de profissão se destacou ao questionar: de qual fonte de esperança Marieta Severo anda bebendo?

Como parece não ser otimista suficiente o fato de recentemente o país ter saído, pela primeira vez em nossa história, do mapa mundial da fome, e não ter voltado a ele, mesmo durante uma inegável crise econômica, divagarei sobre a fonte da desesperança que sacia a insatisfação de tantos brasileiros “de bem”.

OPosto

Inicialmente, é bom reiterar que nem eu nem Marieta sugerimos que vivemos no país das maravilhas. Até porque, por melhor que seja o IDH de algumas nações do hemisfério norte, nenhuma delas foi declarada o paraíso utópico na Terra. A nossa interpretação entusiasmada da atual conjectura nacional não se baseia na negação dos problemas que assolam o país – e pasmem, o mundo -, mas sim no reconhecimento de que, há 20 anos atrás, tudo era bem pior, principalmente para a população pobre e negra do país toda vez que os mercados do mundo entravam em recessão.

Quando a principal fonte de informação sobre o mundo são os telejornais e as centrais online de notícias, não é difícil passar a enxergar o mundo como uma série de ameaças em potencial. Noticiários tem a tradição de transmitir toda sorte de tragédias, catástrofes e casos de violência com os quais devemos nos preocupar ou comover. Contudo, o jornalismo – regido pela estética do espetáculo e o marketing do entretenimento -, se concentra no que choca e tira paz sem se responsabilizar pelo apaziguamento do estresse causado.

Relatam tudo o que precisa ser mudado no mundo sem, na maioria das vezes, investigar o contexto por trás dessas mazelas e sem oferecer todas as soluções possíveis. Falam de crise, mas focam no desemprego e não mencionam o papel que a ganância dos bancos e da especulação financeira exercem nas demissões. Apresentam, isoladamente, crimes hediondos cometidos por menores e não contextualizam toda a omissão do Estado que contribuiu para a delinquência ou informam que menores, estatisticamente, são mais alvos de extermínios do que causadores de mortes violentas. Exibem recortes do que acontece ao nosso redor de maneira superficial, levando o público ao inevitável pessimismo em relação a sua época – como acontece desde o primeiro folhetim sensacionalista. Talvez porque, de certa forma, a humanidade prefira se sentir impotente diante da barbárie humana, ao invés de aceitar sua parcela de culpa como parte da sociedade. Talvez prefiramos sentir repulsa ao outro, nos esquecendo que somos feitos da mesma espécie de carne, sangue e animalidade.

Quado desconhecemos a nossa história – local, regional, nacional e humana -, aceitamos mais facilmente os jornais como arautos da nossa realidade. Detentores de uma visão do mundo, teoricamente imparcial, mas que na realidade estão comprometidas com seus próprios interesses comerciais e metas de lucro. Interpretar a voz de jornalistas como tão desinteressadas quanto a de uma mãe zelosa por sua prole, sem procurar ouvir também historiadores e pesquisadores dispostos a compreender o passado e aliviar o futuro são a receita para a desesperança. Compreender o mundo somente pela ótica do mercado jornalístico é o caminho certo para a manipulação provocada pelo temor de vivermos num mundo onde, há muito, o homem é o pior predador do homem.

Nenhuma novidade noticiada deveria ser aceita quando despida de contexto e múltiplas perspectivas. Julgar e condenar o mundo motivado exclusivamente por eventos recentes, de certa forma, é uma demonstração de ignorância: histórica, social e política. Pois, enquanto nos preocupamos com o imediato agora, somos facilmente conduzidos pela primeira falsa promessa de salvação. Quando nos esquecemos de que somos parte de uma rede de indivíduos, acabamos nos sentindo isoladamente frágeis e abrindo mão de encontrarmos coletivamente uma resolução para o que nos aflige socialmente. Ignoramos o fato de que o gado é inocentemente guiado ao abatedouro pela mesma espécie de mãos que alimentam e banham.

Portanto, se contentar somente com uma única fonte de informação e opinião é estar fadado a conceber o mundo de forma mastigada. Por mais que falte tempo para nos aprofundarmos em toda e qualquer notícia que nos chega, é extremamente necessário que procuremos nos guiar por algo além de uma cega e unilateral desinformação. Se é pra contestar a opinião de outrem é fundamental que tenhamos construído a nossa antes de meramente reproduzir o que lemos ou assistimos.

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