“Ah, essas modinhas de viado…”


Essas bichas são lançadoras de tendência mesmo, viu viado? De repente, é a Ditadura Gayzista se instalando através da cultura. De repente, é alguma predisposição homossexual para a lacração, sei lá. O fato é que os gays estão aí, na vanguarda das gírias, dos estilos, da música e até do ativismo de Facebook. Ao que parece, só as bee que lançam “modinha”!

DandoPintaSloganEstamos em 2015 e até os celulares mais básicos acessam a internet. Se antigamente espaços como museus e bibliotecas eram limitados, hoje qualquer pessoa pode acessar – ainda que virtualmente – qualquer acervo onde estiver. Nada se cria, tudo se recicla, ainda mais na cultura pop. É claro que de vez em quando nasce algum gênio, mas é bastante improvável que alguém acorde “do nada” com alguma ideia super original.

Nossa cultura valoriza o indivíduo e cada vez mais somos convencidos do quanto somos especiais. A ideia de destacar-se, de ser um “original” ou “excêntrico” é atraente para muitos, e é claro que também se manifesta no segmento LGBT. Somos “diferentes” por definição – já que a heterossexualidade é a norma – então não é de espantar que lancemos moda. O que espanta é a rejeição hipócrita disso.

No último final de semana celebramos o Dia Internacional do Orgulho LGBT, e a euforia pela aprovação do Casamento Igualitário nos Estados Unidos fez o Facebook lançar a ferramenta #CelebratePride, que coloca um filtro arco-íris nas fotos de perfil dos usuários. Milhões de pessoas aderiram, e sem contar as críticas de fundamentalistas e LGBTfóbicos em geral, o argumento mais utilizado para gongar a brincadeira foi de que seria uma “modinha”, e que grande parte dos coloridos não tinha real interesse na política do Movimento LGBT.

É verdade que é mais fácil pintar um foto do que ir a um protesto levar uma lampadada? Sim, é. Entretanto, uma cultura que faz tanto fuzuê quando imagens religiosas são utilizadas fora de contexto não pode ignorar o poder de um símbolo. A bandeira do arco-íris simboliza as cores da nossa diversidade, e vê-la estampada no rosto de tanta gente foi um sopro de alívio para uma população acostumada com a violência. Além disso, conseguir visualizar o número de pessoas que apoia a causa, em plataformas amplamente utilizadas como as redes sociais, funciona politicamente como uma pesquisa capaz de pelo menos plantar uma dúvida nas mentes mais fechadas, o que é transformador.

Quando dizemos que alguma coisa é uma “modinha”, estamos usando nosso fetiche por originalidade para  desqualificar o gosto alheio. Apoiar a igualdade nunca esteve em voga, porque a “moda” é sempre apoiar a maioria. O que não sai de moda é machismo, LGBTfobia, racismo… Agora está na moda até pedir prisão de criança e enfiar religião em política, mesmo que só para explorar fiel e aumentar o dízimo!

Já tivemos modinha emo, hipstercolor black, dos bigodes, dos barbudos e agora das barbas e cabelos floridos, purpurinados ou coloridos. Há filmes e séries que entram na moda, desenhos animados, divas, tipos de música ou de festas, e está difícil resistir à moda de RuPaul’s Drag Race. Até o desprezo declarado pelas modinhas é – olha que coisa! – uma modinha!

Quando falamos em comunidade LGBT, referimo-nos a uma população estigmatizada, excluída. Mesmo em círculos mais liberais essa experiência persiste, de forma que o sentimento de pertencimento a um grupo – o acolhimento de uma “identidade partilhada” – age quase como um analgésico inebriante. Que mal há em “seguir a onda” dos amigos? Será que é mesmo tão ruim se espelhar nos outros, reproduzindo e prescrevendo a maneira de olhar e ser olhado em uma época? Essa “união de modismos” não cria um discurso histórico que é a memória e o diagnóstico do nosso tempo?

Deixar a opressão sair de moda e embarcar na “modinha” do respeito, ou mesmo de um jeito mais inusitado de vestir, não é plágio. É uma escolha, uma seleção. Quando elegemos o que vale a pena ser reproduzido, mostramos o que nos importa, e quanto o assunto é liberdade isso é a construção de um legado.

Isso sim, é digno de uma capa de revista!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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