Sexo, Amor e Casamento


Na última semana, os Estados Unidos aprovaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo seu território. Com isso, as leis estaduais perderam valor e todos os estados, mesmos os mais conservadores, terão que acatar pedidos de uniões entre casais homossexuais. Sem dúvida, um avanço na igualdade de direitos. E em função de comemorar este momento, o facebook criou um aplicativo para que as pessoas colorissem suas fotos com o arco-íris, mostrando que elas também apoiam a decisão. Mas juntamente com isso, várias polêmicas foram criadas. Houve quem aderisse e comemorasse; houve quem comemorasse sem aderir; e claro, houve quem criticasse. E as críticas variavam entre “pela fome ninguém se mobiliza”; “no Brasil temos lei igual (sic) e não vi essa comoção”; até o famoso discurso de “eu não vejo necessidade de casamento, união civil só está bom, família é composto por homem e mulher”.

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Em algum momento da pré-história, os seres humanos perceberam que agrupar-se facilitava a sobrevivência. As tarefas eram divididas, as pessoas ajudavam a cuidar uma das outras e protegiam-se mutuamente. Sem dúvidas, essa atitude de criar grupos facilitou, e muito, a preservação da espécie. Essa proximidade possibilitou o desenvolvimento de relações mais profundas e de acordo com a psicologia evolutiva, o ciúme seria uma resposta emocional à ameaça de perda dessas relações. Quer dizer, relacionar-se com outras pessoas é tão importante que até desenvolvemos sentimentos a fim de proteger esses laços.

Mas o casamento monogâmico, composto por uma mulher e um homem, com o objetivo de formarem uma família é uma invenção do Cristianismo. Até então, a poligamia era praticada por certos povos e civilizações. E as relações homoafetivas também eram praticadas em diversas culturas. Ao longo da história, a instituição casamento foi se modificando, adaptando-se ao seu contexto histórico sociocultural.

E durante muito tempo o casamento serviu para constituir alianças importante, fortalecer o poder de determinadas famílias e também salvava as finanças de outras. O amor não era considerado na hora de estabelecer uma união. Sabemos que nesse modelo, as mulheres, por serem consideradas propriedades do homem (no caso, o pai), eram trocadas por dotes e sua vontade não era levada em consideração. Também não era permitido à mulher o adultério, com penas severas para quem o executasse. Em compensação, as leis do adultério não eram tão duras quando o homem traía.

Então, as pessoas não se casavam por amor. Nesse contexto, levando em consideração como o Cristianismo e seus dogmas influenciaram as sociedades, não poderia haver outra constituição familiar que não marido, mulher e filhos. Fazia sentido. Afinal, a Igreja Católica se colocava contra à homossexualidade. Casamento não se dava por sentimento, mas pelas vantagens que isso trazia à família. Então, se você gostava de meninos ou meninas, pouco importava. O importante era casar, reproduzir-se e manter as aparências.

E onde entra o amor nessa equação?

A revolução industrial e o capitalismo trouxeram mudanças profundas no funcionamento da nossa sociedade. A mulher, que até então era propriedade da família e servia como moeda de troca em negociações, ingressou no mercado de trabalho. A revolução sexual, os anticoncepcionais e legalização do divórcio mudaram o entendimento sobre o casamento e a partir de então, o amor passou a constituir a base para os relacionamentos.

Mas mesmo com o amor baseando as relações, o casamento ainda é a constituição de uma parceria. Onde os bens são divididos, com vantagens e privilégios que outras formas de relacionamento não possuem. O casamento ainda é uma forma de estabilidade e que garante aos cônjuges direitos. Então, mesmo que a base seja diferente, o objetivo ainda é bem próximo ao do original: institucionalizar os vínculos.

 Mas não parece irônico uma sociedade que defende que as relações sejam constituídas através dos laços afetivos, exclua e determine quem pode criar tais laços? Sabemos que existem homens que amam homens, assim como mulheres amam mulheres. Se um homem pode amar uma mulher e com ela resolver formar um novo núcleo familiar, por amor, por que dois homens ou duas mulheres que nutrem o mesmo tipo de sentimento não podem?

E os argumentos para negar o direito de estabelecer essa parceria institucionalizada são diversos: a constituição diz que família é composto por homem, mulher e seus filhos. Mas e os casais que optam por não ter filhos? E os que não podem tê-los? Não são famílias?. Bom, constituições são feitas com base no pensamento vigente na época e não, não são imutáveis. Ou então, nós mulheres ainda não poderíamos votar. Elas mudam, evoluem e se adaptam aos novos tempos.

Outro argumento que vi por aí é que “dois iguais não fazem filho, a espécie corre o risco de se extinguir”. Olha, talvez isso fizesse algum sentido lá nos primórdios da raça humana. Afinal, a gravidez oferecia risco à mulher e por ser muito long, não era interessante que parte da população não quisesse procriar. Mas você já viu a quantidade de pessoas no mundo? A possibilidade da população se extinguir porque parte dela se relaciona com pessoas do mesmo sexo e assim não procria, é mínima. Até porque, alguns homossexuais resolvem procriar, afinal, seus órgãos ainda apresentam tal capacidade.

Então, negar as pessoas o direito de institucionalizarem seus vínculos e usufruir de direitos advindos do casamento, simplesmente por que ambos tem o mesmo sexo contraria  o princípio de que o importante é o amor. Então, voltemos à época dos casamentos arranjados. Dos casamentos por dotes. Não quer? Nem eu. Até porque ainda nos é permitido não casar com ninguém, se assim quisermos.

Então, se o casamento é por e sobre amor…Por que restringir à uma forma de amor?

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