Confissões de um negro empoderando


Antes de tudo, é válido lembrar que ninguém é essencialmente racista – tampouco homotransfóbico, machista, classista etc. Hitler não saiu do ventre de sua mãe odiando judeus e adorando a pureza ariana. O que, em outras palavras, é o mesmo que dizer que todos – eu e você,  inclusive – somos ensinados todo tipo de preconceito. (Nesse texto ressaltarei o racismo). A única diferença é que pessoas negras, assim como mulheres machistas ou gays homofóbicos, quando reproduzem racismo, machismo e homofobia – respectivamente – não exercem poder sobre seus iguais, mas sim compactuam com a opressão que nos alveja.

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Dito isso, preciso confessar que não sei precisar exatamente quando me dei conta do que realmente significa e como o racismo influencia a minha vida. Em retrospectiva, sei que ele esteve sempre presente, mas seria impossível precisar quando tomei consciência de que toda mágoa que eu sentia em razão das injúrias, piadinhas, “preferências”, perseguições e tantas outras circunstâncias eram fruto dessa ideologia de dominação. Não faço ideia quanto tempo levei para aceitar que algumas das interações que me trouxeram pesar eram produto do racismo. Só posso dizer que é mais fácil confrontar/lidar com todo o mal causado depois que se sabe dar nome aos bois.

Nessa trajetória de tomada de consciência, muitas fontes ajudaram: blogs, seriados estrangeiros, livros, artigos e, principalmente, o diálogo com outras pessoas negras – conscientes e não. Contudo, nada disso teria surtido efeito se não fosse a falta de originalidade das posturas e discursos racistas que me possibilitaram identificar inumeras situações imediatamente. Na verdade, quanto mais me informo sobre o assunto, percebo que ele se manifesta de maneira bastante parecida por todo país e em diversos lugares no mundo. Provavelmente porque toda a sua base teórica surgiu na mesma época e dos mesmos valores morais e científicos. A única especificidade negra é que fomos o único povo cuja humanidade foi questionada e revogada. E continua a ser.

Uma vez perdida a inocência, a maneira como se enxerga o mundo não tem mais como ser a mesma. Todas as antigas gracinhas, para as quais se sorria por medo delas colarem, se tornam ataques irrenconciliáveis e sufocantes. Possivelmente pelo acúmulo de sapos engolidos durante a infância e a adolescência. De toda forma, compactuar com elas deixa de ser uma opção. Entretanto, o pior momento dessa descoberta é quando nos damos conta de que pessoas próximas e até queridas por nós, já foram preconceituosas conosco. Exerceram o poder de uma falsa (e inconsciente) supremacia para nos ridicularizar, animalizar ou objetificar. E, apesar de ser fácil perceber que essa nem sempre foi a intenção, nada apazigua a dúvida sobre que outros esqueletos se escondem por trás de todas as desculpas prontas tais como: “somos todos iguais”, “não vejo cor”, “foi só uma piada”,…

Depois que a ficha cai e a desconfiança se instala, a solidão pode ser inevitável. Quando o receio não nos trava, são os outros que se afastam por não se compactuar mais com desrespeito, pra dizer o mínimo. Por isso, é preciso reconstruir vínculos sociais, se relacionar com pessoas com histórias parecidas com as nossas e que não descartam como besteira o que alegamos nos oprimir. Uma vez que a falsa ideia de democracia racial tupiniquim cai por terra, se torna doloroso e impraticável nutrir consideração de quem se recusa a rever qualquer grau de intolerância. Pode ser difícil, mas o melhor a se fazer, muitas vezes, é encontrar refúgio em quem já desconstruiu toda opressão que absorvemos em nossas criações – por mais liberais que essas possam se imaginar. A melhor parte disso, é que se aventurando em novas amizades, é possível encontrarmos uma infinidade de pessoas dispostas a debater o que antes era taxado de chatice.

Depois que se abre os olhos para os discursos de opressão, algum nível de ativismo é inevitável. Mesmo que essa militância se resuma a aceitar-se como é. Porém, independente da frequência que você passe a confrontar as instâncias depreciativas, pessoas indispostas a reconhecerem seus  privilégios  sempre considerarão que “tá demais”. Ignorando o fato de que se insistimos em bater na tecla é porque nossa relação com ela é importante suficiente para todo esse desgaste.

Apesar de não haver muitos estudos sobre o efeito do racismo na saúde mental de pessoas negras, tenho achado difícil não transitar entre a depressão, a melaconlia e a raiva. Pode parecer exagero, mas é profundamente estressante ler que o técnico da seleção do esporte favorito do Brasil declarar que afrodescendentes gostam de apanhar e perceber que isso não causa tanta indignação quanto um metrô lotado ou o calor do verão tropical. É impressionante  perceber que tantas pessoas brancas ao seu redor não dão a mínima para um assunto tão sério, letal e devastador. Choca a incapacidade branca de compreender que racismo é um problema para pessoas negras/indígenas/asiáticas. Um defeito de pessoas brancas dirigido a pessoas de outras etnias.

Tudo isso, entre algumas outras coisas, me coloca num enorme dilema sempre que me deparo com um irmão ou irmã que ainda não rompeu com a nossa cultura intrinsecamente racista: empoderar ou não, eis a questão. Viver a farsa da aceitação “igualitária” ou frustrar-se cotidianamente com a indiferença branca? Por mais que eu prefira a verdade e ela tenha me proporcionado força e aliados, ser responsável pelo descortinar de outrem não é uma escolha simples. Contudo, seremos mais fortes e genuinamente livres quando todos romperem com essa tradicional opressão.

Episódios como o silêncio branco frente a fala de Dunga exemplificam bem os teóricos que defendem que “não existe moralidade onde há privilégios”. Esperar que pessoas brancas abram mão de seus seculares privilégios por compaixão ou altruísmo é a mais cruel das fantasias. Portanto, empoderar pessoas oprimidas, por mais cansativo e decepcionante que possa ser, é fundamental para interromper qualquer ciclo de tirania. Por mais que o empoderamento seja um processo incessante, ele ainda é melhor do que conformar-se a submissão.

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