Freddie Mercury: A Biografia, Laura Jackson


Conta a história da vida de alguém é o que pretendem biografias, mas as perspectivas que o narrar tomam podem variar muito. Não só por conta do biografado como também das pessoas que ajudarão a compor a linha que o biografador conduzirá ao construir o texto. Não são baseados somente em fatos, mas em memórias e na imagem e impressão que se tem dos acontecimentos.

Como falar da figura de Freddie Mercury sem com isso, muitas vezes, não contar a própria história do Queen? Como falar do vocalista do Queen sem mostrar os movimentos musicais, a evolução do Rock e sua atuação no mundo musical e fora dele? Impossível. O único caminho seria se falássemos de Farrokh Bulsara, nascido em 05 de setembro de 1946 no hospital público de Zanzibar. Todavia, Farrokh não foi o líder do Queen. Embora tenha sido em muitos aspectos a base para o vocalista de uma das mais importantes bandas britânicas desde os anos 70 (mais ou menos), ele se eclipsa com o surgimento de Freddie Mercury, o espetáculo e a performance.

Estante

É isso o que temos em Freddie Mercury: A Biografia, de Laura Jackson com 308 páginas, é lançamento do mês de maio do Grupo Editorial Record.

Na biografia, Mercury, ainda Farrokh é um menino obrigado a viver longe da família, em um internato e, ainda criança, aprende a tocar violino, participa do coral e do teatro da escola, base que o acompanhará na sua vida enquanto líder do Queen.

Já quando se torna Freedie, somos apresentados a um sujeito que, a despeito de saber que nasceu para ser um rockstar, sente-se muito sozinho, ainda mais por viver constantemente um papel. Mercury levava suas interpretações do palco para a rua, um movimento que evitava que se machucasse em suas relações interpessoais, ao mesmo tempo que impedia que muitas delas acontecessem.

Isso pode ser explicado primeiro pela mudança de Zanzibar para Londres, quando ainda criança, em que sendo diferente, tentava a todo custo se encaixar, mesmo que pelo viés contrário ao que se esperava. Ele enfatizava ainda mais o diferente, o ridículo de si mesmo (ou pelo menos do que os outros achavam ridículo nele).

E, embora muito afetado e espalhafatoso, as pessoas que viveram em torno dele afirmam nunca terem suspeitado de que ele fosse gay. Primeiro porque havia, segundo eles, essa aura de afetação naqueles tempos e Freddie, além de ter uma namorada séria, era muito discreto.

Discrição. Por causa dela que muitos do Movimento LGBT não considerou, na época em que Freddie Mercury morreu com AIDS, que ele fosse “parte do grupo”. Ele nunca se assumira gay, no máximo bissexual, e deixou para declarar que era aidético já no fim, impossibilitando no que diz respeito ao movimento, uma discussão mais forte sobre os perigos da AIDS.

Independente de qualquer discussão sobre a postura do cantor ter sido ou não boa para o Movimento e para o Combate à AIDS, ela é muito coerente com a vida do cantor, que sempre buscou deixar a sua vida particular pouco exposta. Um discreto. Um escandaloso e performático discreto, que buscava, desde pequenino, ser aceito.

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