Gays, lésbicas, O Boticário e uma guerra ideológica!


O dia dos namorados está chegando, já que no Brasil ele é comemorado em Junho por razões puramente comerciais. Como não está fácil para ninguém e o capitalismo está sempre pronto a incluir quem puder pagar, passou da hora das empresas perceberem que o “Pink Money” rende. Pensando nisso, O Boticário lançou uma propaganda “Toda forma de amor”, que inclui um casal gay e um casal lésbico na campanha para a data. Acontece que Jesus não gosta, né?

DandoPintaSloganÉ guerra! Salve-se quem puder! Apesar do Shopping da Câmara e da chuva de canivetes nos pontos turísticos do Rio, o importantíssimo movimento popular que promoveu o boicote à novela Babilônia em defesa da família precisou voltar suas atenções para outra campanha, mais urgente: marcar “não gostei” no “comercial gay” de perfume!

Seria cômico, se não fosse trágico. A disputa pelos likes no vídeo do YouTube é uma alegoria do “cabo de guerra” que esticamos em nossa sociedade, com conservadores de um lado e progressistas do outro. No “popular”, caímos facilmente na generalização de “evangélicos X gays”, mas insistir nisso é ser preconceituoso com os dois grupos. Para além de sexualidade e de religião, essa briga fala em valores e em criancinhas corrompidas para não falar em dinheiro, em política e em poder. O “moralismo à brasileira” fede, e desodorante nenhum vai dar jeito!


A iniciativa de O Boticário é louvável, mas não deveria ser. Para além da ideia institucional de “marcas que fazem parte da nossa história”, uma empresa é um negócio e precisa gerar lucros. A representatividade LGBT é necessária, mas não há razão para tratar do assunto como se estivéssemos recebendo uma grande concessão. O consumidor LGBT tem um poder de compra considerável – lamentavelmente conhecido como “Pink Money”- que representa uma fatia de mercado impossível de ignorar. Esse é o alvo da campanha, que ainda está longe arriscar uma representação mais plural desse segmento, uma vez que seguiu o “caminho fácil” de uma imagem vendável: gays e lésbicas brancos, higienizados, e obviamente sem menção aos bissexuais e transgênero.

Ah, isso é um problema? Bem, se é para fazer, o bom é fazer direito. Mas vá lá, talvez a campanha seja um começo. Infelizmente, talvez ainda vá levar algum tempo até que todas as cores do arco-íris sejam reconhecidas e quem sabe, não causem tanto alvoroço. A representatividade é importante porque faz parte do processo de validação de identidades, mas ninguém precisa do Boticário para saber que homossexualidade existe ou para gritar “OhMeuDeusDesligaATelevisãoQueAsCriançasVãoTudoVirarViado”! É tudo tão ridículo que as piadas vem prontas…

boticário 1A campanha de boicote à marca foi espalhada em correntes do Whatsapp e gritada – ele só fala assim – por Silas Malafaia no YouTube. Não demorou para que páginas de humor puxassem campanhas de apoio e a repercussão fez com que a quantidade de “curtidas” do vídeo acabasse ultrapassando as de “descurtidas”. O tumblr Aproveita e boicota também foi criado, indicando as marcas que manifestam apoio aos LGBT, como é o caso do Facebook, do Google, da Disney, da Apple e do Mc Donald’s. A seletividade interesseira de alguns fanáticos não é surpresa, já que a própria Bíblia está cheia de passagens sumariamente ignoradas, mas se é para mostrar indignação e correção moral, um pouco de coerência é o mínimo! Boicotar perfume é fácil, até porque o da Lady Gaga é de outra marca, só que mobilizar a galera sem telefone, sem internet, e ficar sem cantar “Let it go” ninguém quer, néam?

No fim das contas, quem ganhou com isso tudo foi O Boticário mesmo. Os brados conservadores que pipocam em memes e micaretas “Marchas para Jesus” assustam, por revelar a face violenta da LGBTfobia do nosso país, mas são os últimos ganidos raivosos de um animal moribundo. Vários LGBT garantem que vão comprar um produto O Boticário nos próximos dias, seja para manifestar apoio, seja por gratidão, e contra o “Deus dinheiro” não há divindade que possa. A marca está sendo amplamente comentada e a resposta do público se traduz em vendas, o que só vai servir para tirar outras empresas do armário. São dias difíceis para a “tradicional família brasileira”.

A luta por direitos iguais e por uma sociedade mais justa não será na internet. Entretanto, apesar da violência diária e do enorme caminho ainda a percorrer, parece que o jogo virou não é, keridinhos?

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta toda quarta, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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