Amor, empreteceram o herói das crianças


Aficionados dos quadrinhos e nerds em geral, mais uma vez se uniram para contestar as “liberdades artísticas” dos responsáveis por adaptar suas obras favoritas para o cinema. Dessa vez o alvo das críticas foi o personagem Tocha Humana do Quarteto Fantástico, que apesar de originalmente desenhado como loiro, nessa segunda adaptação será interpretado pelo ator Michael B. Jordaninexplicavelmente negro. Apesar dos fãs fundamentalistas não contestarem a competência técnica do ator de Fruitvale Station, eles defendem que esse tipo de repúdio não se trata de racismo, mas sim de preservar a fidelidade ao original. Geeks, melhorem!

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Inicialmente publicado em 1961 pela Marvel Comics, o personagem Johnny Storm encorporava os referenciais de um jovem de classe média, inconsequente e popular da década. Uma época onde seria impossível apresentá-lo como sendo qualquer outra coisa senão branco, visto que em muitos estados ianques, negros nem tinham pleno direito ao voto e à educação superior. Ou seja, mesmo que os autores se preocupassem com a representação da diversidade nas suas páginas, protagonistas não-brancos dificilmente seriam aceitos por parecerem inverossímeis, serem automaticamente taxados de propaganda comunista política e, por que não resumir? Por contrariarem todo o racismo vigente nos produtos culturais de massa.

Tal forma de discriminação nunca foi declarada. Nem lá como tampouco continua sendo por aqui. Como todo tabu, as coisas simplesmente eram como ainda continuam sendo: personagens brancos predominando tudo. Isso porque se imaginava que eles são um arquétipo universal capaz de gerar empatia e identificação com toda e qualquer pessoa, como se até mesmo indígenas que jamais viram um euro-descendente fossem capazes de se projetar nessa tela branca de humanidade…

Esse tipo de restrição, portanto, não passa de uma maneira implícita de (re)afirmar que pessoas brancas podem ser o que elas bem entenderem e desejarem. Pessoas não-brancas devem simplesmente se contentar somente com os papéis gentilmente designados a elas… Pessoas brancas são todos e qualquer um: heróis, vilões, samurais, califas, realeza africana, sinhás, Isauras, aliens, monstros e o que mais lhes der na telha. Isso porque pessoas não-brancas seriam exóticas demais, pertubadoras distrativas demais, logo, elas precisam ser contidas em nichos para não prejudicarem o bom andamento de narrativas. E assim, crianças não-brancas acabam se espelhando nociva e exclusivamente em referenciais estéticos e culturais que menosprezam suas identidades étnicas.

Como um todo, parece que a autenticidade só é contestada quando ela não ameaça a predominância que o nazismo e a KKK aprovariam, quando o contrário acontece só as minorias atingidas se insurgem. Por exemplo, há séculos Jesus Cristo deixou de ser um homem do oriente médio para se tornar um homem do Mediterrâneo renascentista e ninguém parece imaginar que a essência de sua mensagem se perdeu por causa disso. Tampouco as pessoas questionam o embranquecimento do Egito Antigo em quase todas as produções possíveis. Fica até difícil lembrar que a civilização situava-se na África. Semana passada foi especulado que um monge tibetano do pantheon da Marvel será interpretado por uma mulher branca, e as únicas críticas que encontrei de nerds médios – leia-se homem branco -, foram à mudança de sexo. Isso pra não problematizar a representação de personagens orientais exclusivamente como mestres de artes marciais a alunos ocidentais é extremamente batida, para não dizer estereotipada.

Porém, o mais ridículo nesse mimimi dos fundamentalistas é a total ignorância acerca do principal valor que rege as grandes editoras de quadrinho: o monetário. Mas engana-se também quem acha que os estúdios de cinema estão interessados em fazer política com essas decisões. Cada vez mais as minorias querem se ver na telona, na telinha e nas publicações em geral. Não apenas nos EUA, como também em Joanesburgo, em Pequim e em Manaus. Embora possamos louvar quem peita essa ainda controversa iniciativa, no caso do novo Quarteto Fantástico, o diretor Josh Trank, não podemos esquecer que ela não foi aceita por genuína boa intenção ou engajamento sócio-político, mas por oferecer uma oportunidade de risco cujo maior objetivo é o sucesso nas bilheterias. Ou seja, os fãs mais radicais podem ladrar a vontade porque enquanto os antigos leitores esboçam um boicote, uma legião de espectadores saem dos cinemas ávidos para consumir os mesmos títulos que os decepcionaram.

Leia a coluna Enegrecendo toda segunda, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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