MOVIMENTO: Produção de discurso LGBT, parte 4

MOVIMENTO: Produção de discurso LGBT, parte 4

O Movimento LGBT está em crise. A conquista de direitos civis em boa parte do mundo é uma realidade, mas ainda há muito trabalho a ser feito, e a impossibilidade de uma “organização geral” vem multiplicando demandas e pulverizando a união, que é tão essencial para o senso de comunidade e de força política. O orgulho que nasceu nos anos 60 precisa se reciclar para o século XXI, ou então vai se afundar na vergonha de nossos próprios preconceitos.

DandoPintaSloganDesejos sexuais não fazem uma comunidade. Embora a sociedade heteronormativa veja qualquer coisa diferente de si como “tudo viado”, a diversidade de práticas e desejos sexuais, além de manifestações afetivas e de relações dentro do que é conhecido como “LGBT” é infinita. Se existe algo realmente único a essa vivência, talvez seja exatamente o status de cidadão de segunda classe promovido pela discriminação.

Viado, viadinho, bicha, bichinha, boiola, mulherzinha, florzinha, maricas, mariquinha, maricona, cacura, xibungo, paneleiro, pegadeira, dadeira, vadia, piranha, traveco, trava, mulher de tromba, mulher banana, mulher surpresa, sapatão, sapa, sapata, caminhoneira, bolacha, fancha, gilete… De tudo, somos chamados diariamente. E é isso que nos une.

É importante pensar no “discurso LGBT” porque é o que se diz da nossa identidade que forma essa identidade. O conceito está em sua definição, a identificação vem através de um processo de reconhecimento, e essa vivência reforça a conceituação. É óbvio que existem heterossexuais que não tratam pessoas LGBT como inimigas ou como monstros, assim como há “dissidentes sexuais” que não se identificam na “sopa de letras” do movimento político, mas é na exclusão que somos colocados “no mesmo saco”. É quando alguém se dá o direito de ofender ou atacar um LGBT na rua que todos morremos um pouco, já que crescemos com essa ameaça em cada sombra.

Nossos padrões de consumo, a forma como somos representados pela mídia, a construção do nosso desejo, os xingamentos e as escolhas da militância dizem para as novas gerações quem são os LGBT. Não está só no sexo, na afetividade ou na identidade.  Existe uma CULTURA LGBT que é viva, que pulsa a cada conquista e que é marcada por cada dor. Vivemos uma época de transição entre a formação desse movimento e o que ele será quando suas batalhas estiverem vencidas. É um terreno nebuloso que provavelmente só o afastamento histórico vai clarear, e logicamente que isso esconde perigos.

Os Malafaias e os Bolsonaros da vida caçoam da nossa articulação política com uma certa razão, já que “viado não vota em viado”. A questão é mais profunda, pois diz respeito ao peso do estigma na identificação de uma pessoa e no quanto o movimento político consegue dialogar com as necessidades de quem representa. Ora, os LGBT não são todos iguais. A luta pelo casamento igualitário vem sendo tratada como a grande causa do arco-íris, mas a estratégia política do discurso de “eu nasci assim” não atende atende a todos. A emergência do debate da transexualidade – e a luta por sua despatologização – denuncia o quanto o movimento é e sempre foi GGGG, e a falta de cuidado com que as demandas trans vem sendo tratadas faz pensar que o T em nossa sigla é apenas decorativo. O apagamento das questões lésbicas é – que ironia – visível em sua ausência. Quando se pensa em saúde LGBT, o foco ainda são os homens gays e o HIV, mas pouco se fala sobre a saúde da mulher lésbica ou sobre o tipo de violência especificamente direcionada a essas pessoas. A bissexualidade é negada, é motivo de chacota. E as identidades não binárias, a assexualidade e discussão queer ainda são vistas como “muito complicadas para o povo”, como domínio da academia.

Essa gente que sofre e morre todo dia tem que fazer o quê? Esperar que os “direitos gays” venham primeiro para que, de repente, quem sabe, talvez, chegue sua vez? Uuuhh, girl….

É improvável que a juventude LGBT vá se engajar facilmente. Os direitos garantidos, a representação em novelas e o programa do RuPaul estão construindo vivências muito diferentes das enfrentadas por quem usava o armário para sobreviver ou precisou se unir contra uma epidemia global. É bom que seja assim. Entretanto, todo dia alguém morre por causa de sua identidade sexual em nosso país – e olha que ainda tiramos onda de “friendly” e estamos longe de ser a Rússia ou o Irã.

Isso só vai COMEÇAR a mudar quando entendermos que respeito não se pede e nem se faz por merecer. É um direito universal, antes de qualquer identidade, até mesmo a de humano. E prestar atenção ao que dizemos, em como dizemos, a quem e porque razões, em quais espaços, é fundamental. É como a nossa história – que querendo ou não, é a história de um MOVIMENTO – está sendo escrita.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta toda quarta, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página. Você pode ler os outros posts da série que analisa a formação de discurso LGBT aqui, aqui e aqui.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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