Top 5 “Branquices”


Antes que a branquice comece, uma definição sucinta de racismo é o sistema enraizado na cultura de uma sociedade que prega a supremacia de um grupo étnico sobre outros. No caso do Brasil, e desse texto, seria a ideologia que naturaliza a predominância branca nas nossas revistas, novelas, universidades, senado, câmaras e qualquer posição privilegiada.

Como não vivemos num país nórdico, basta ter um mínimo de noção histórica para entender que o fato de negros e indígenas ocuparem mais colunas policiais e cenários degradantes não se trata de mera coincidência ou destino, já que toda a riqueza do nosso país não existiria sem a participação dessa parcela significativa da nossa diversa composição étnica. Dito isso, depois de listar algumas das m*rdas que gente branca diz alguns meses atrás, senti a necessidade de listar as colocações mais comuns quando brancos tentam discutir racismo com pessoas negras. A seguir as cinco mais frequentes.

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Usar negros célebres como exemplo de luta

Apesar de muitos nomes terem contribuído para a luta antirracista, nenhum líder ou celebridade serve de exemplo universal. É muito comum brancos compartilharem falas de negros como Pelé ou do Morgan Freeman defendendo que o racismo cessará quando deixarmos de falar dele; ou defendendo que, tal como Martin Luther King, o movimento negro deveria ser pacífico e didático. Sim, tem quem argumente que se deixarmos de pensar nas injustiças do mundo elas simplesmente desaparecem por se sentirem ignoradas ou algum mecanismo mágico que valha. Quanta maturidade, não?! E quanto a doutrina de Luther King, sinto informar que ele foi assassinado defendendo a desobediência civil pacífica. Ou seja, negros que combatem o racismo são alvo de violência física mesmo quando reconhecidamente incapazes de  atacar de volta. Pode ser fácil pedir calma e didatismo dos outros, mas quando é a sua vida ou dignidade sendo constantemente atacadas, cada um se defende como e quando consegue. Ditar a maneira apropriada de se fazer isso é como tentar nos civilizar novamente, sendo que na primeira vez as amarras não eram comportamentais.

Escuderia negra

Esse é um ponto que vale deixar bastante escurecido, se você precisa citar um parente negro próximo ou distante, alguma pessoa conhecida ou íntima e até mesmo um ídolo para demonstrar a sua proximidade com a cultura negra, você não é uma autoridade no assunto. Não há negros ou negras honorários. A nossa vivência é diária, pessoal, real e intransferível, portanto resista ao impulso de se apossar delas. Sem mencionar que usar pessoas negras como escudo para acusações de racismo significa um ato de extrema desumanização e silenciamento. Presumir que um grupo inteiro de pessoas se resume ao restrito aspecto ao qual você tem acesso, é nos reduzir a um referencial que lhe é cômodo e familiar quando a realidade é muito mais abrangente que nosso umbigo.

Porque tal autor…

Enquanto você estava aprendendo com livros, muitas das vezes escritos por brancos, muitos de nós convivemos com a prática racista muito antes de sabermos escrever a palavra racismo. Nossa experiência diária vale bem mais que um pós doutorado no assunto. Tentar usar a ciência para descrever o que sentimos, literalmente, na pele é como se eu – um homem cis – depois de longo estudo obstétrico, desautorizasse uma pessoa com útero a definir como ela se sente durante o seu período menstrual. Física e psicologicamente. Ridículo, desrespeitoso, e desnecessário!  Se é pra se apoiar na ciência, então você deveria saber que artigo ou livro nenhuns têm a palavra final sobre o fenômeno que for. Nenhum conhecimento é definitivo, então, na próxima cale-se e aproveite a oportunidade para aprender. Pode até anotar se julgar necessário.

É tudo coisa da sua cabeça!

Segundo a lenda, esquimós utilizam 7 termos para se referirem a neve. Como vivemos num país tropical, dá tudo no mesmo, contudo a mesma analogia poderia ser utilizada para o racismo. Não é porque nunca ninguém olhou pra você e temeu ser assaltado que não existe um olhar específico para essa reação racista. Quando essa reação é diária, dá até para criar um espectro do pavor que a sua simples presença causa. Por isso, quando alguém que lida com o racismo quase que diariamente te diz que algo é racismo não discuta e aceite. A empatia começa quando nos colocamos no lugar do outro e não quando tentamos adaptar a realidade do outro à nossa. Se você precisa de provas para aceitar o sofrimento de alguém, provavelmente você participa ativa – mesmo que inconscientemente – pra persistência dessa dor.

Nem todo branco…

Como mencionado anteriormente, racismo é um sistema que delega privilégios a pessoas brancas no nosso país. Ou seja, toda pessoa branca nesse país, declaradamente racista ou não, recebe automaticamente benefícios simplesmente por serem brancas. Maiores salários, maior nível de escolaridade e o registro de chegada de seus antepassados a esse continente ser um passaporte e não uma recibo de compra sendo alguns deles. Portanto, sim, toda pessoa branca desfruta, mesmo que involuntariamente, das benesses concedidas pelo racismo. E embora seja impossível dizer que alguém é racista por natureza, insistir que a cor das pessoas não produz tratamentos diferenciados nesse país serve como um atestado – internacionalmente reconhecido – de comprometimento com as práticas de invisibilização desse sistema.

Por fim, vale a pena registrar que não há livro de etiquetas nem manual oficial de como pessoas negras devem se defender contra ataques racistas. Muito menos um catálogo completo de todas as manifestações dessa praga. Sendo assim, tentar moldar como uma pessoa negra deve se portar diante do racismo deve ser interpretado como um ato de ignorância e desconsideração, assim como de latente racismo. E se você ainda prefere acreditar que  tudo não passa de mimimi, vitimismo e está cansado de ouvir falar sobre o assunto, pare para imaginar como tudo isso é extremamente chato de se conviver rotineiramente, até naqueles dias em que você resolve ficar em casa vendo televisão, escutando música ou lendo um livro. O privilégio branco começa pela opção de lidar com o assunto apenas quando a disposição chega.

Leia a coluna Enegrecendo toda segunda, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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