MÍDIA ARCO-ÍRIS: Produção de Discurso LGBT, parte 3


Se os Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros fossem parte de uma civilização antiga, conhecida hoje apenas por registros arqueológicos, talvez fossem considerados contraditórios. Por um lado, analisando revistas e sites, pareceriam um exército de homens gostosos preocupados com frivolidades. Por outro, a análise de notícias os pintaria como travestis perigosos ou como bichinhas vítimas de violência por assediar machos heterossexuais. As mulheres, não seriam citadas. Não é incrível o poder da mídia na construção de um discurso LGBT?

DandoPintaSloganQuando se pensa em um “ser LGBT”, é preciso levar em consideração o que se entende – como conceito geral – como um “indivíduo LGBT”. Os jornais, as revistas, a propaganda, os blogs e sites, a TV, o cinema… Toda a mídia funciona como um fio – entrelaçado a outros, como religião ou medicina – na trama da criação, assim como da rejeição ou da aceitação, dessa identidade social que atribuímos a algumas práticas sexuais. Ela é parte da construção desses “sujeitos sociais”.

Há uma resistência justa à manutenção de estereótipos LGBT em representações midiáticas, já que muitas vezes eles servem para reforçar estigmas. Entretanto, pouco se problematiza os estereótipos que são considerados positivos. Ninguém quer ser conhecido como promíscuo, como marginal ou “afetado”. O preconceito que recai sobre as travestis, as pessoas trans, as caminhoneiras e os efeminados, além dos soropositivos, é enorme. Bicha velha não existe, sãos as “cacuras” predadoras de garotinhos. Já o gay rico, formado, de gostos refinados e corpo impecável, que entende de moda e de ópera na mesma proporção, é celebrado como a versão colorida daquilo que alguns machões heterossexuais mais descuidados poderiam ser, só para agradar um pouquinho suas mulheres: o metrossexual.

Essa não é uma exclusividade gay. Somos sempre bombardeados com informações sobre o que é desejável ou é condenável em nossa sociedade, tanto em termos estéticos quanto em padrões de consumo e de comportamento. A questão é mais delicada quando falamos em minorias porque para elas a opressão é maior, até porque os privilegiados de nascença tendem a perceber sua normalidade – E porque seria diferente, néam? – como um fato natural e inquestionável.

Se o assunto é “Mídia Gay”, antes de achar ruim ter uma bichona no Zorra Total precisamos olhar para nossas revistas e para a propaganda direcionada ao “Pink Money”, que reforçam a ideia de que a comunidade LGBT é composta apenas por homens brancos, jovens, pirocudos e sarados, dançando eternamente a última música da Madonna, com sungas minúsculas em algum paraíso hipster. Na internet, o uso do humor faz com que canais de vídeo com grande alcance pequem por omissão, explorando a cultura LGBT sem apresentar sua diversidade. Falo em “Mídia Gay” conscientemente, porque o apagamento das outras identidades da sigla também faz parte dessa produção de discurso LGBT. Ao que parece, para o mercado e para os registros, apenas o “homem gay aceitável” interessa, e nossa representação na mídia – seja considerada boa ou ruim – é alimentada por essa filosofia ao mesmo tempo em que a produz ou corrobora.

O reflexo mais violento disso aparece no mimimi de Facebook noticiário, já que o indivíduo LGBT que não tem o poder do consumo para protegê-lo vira alvo de injúria e sensacionalismo. Palavras como “travesti” e “homossexual” – além de diversas variáveis ofensivas – são utilizadas para desumanizar vítimas e criminosos, que automaticamente passam a ser lidos não pelo conteúdo da notícia mas sim pelo preconceito atrelado a suas identidades.

É necessário que os profissionais da imprensa e que os movimentos sociais dialoguem para tentar encontrar um meio-termo, já que o registro de notícias LGBT acaba por gerar um dilema. Quando um jornalista é empático com a questão, pode encontrar meios para ser respeitoso, mas talvez esbarre com sanções editoriais que acabem com sua liberdade. Além disso, quando se fala especificamente em crimes de ódio, é necessário destacar a identidade LGBT da vítima e a motivação LGBTfóbica do agressor, já que omitir isso seria um apagamento. Mas se o uso de algumas palavras já vem carregado de preconceito, como fazer malabarismo para ajudar ao invés de atrapalhar?

A questão é delicada e extremamente importante, pois precisamos entender que a violência não está só nos espancamentos, assassinatos e lampadadas, mas também no que é dito no dia-a-dia em anúncios, notícias e aplicativos. As empresas não vão se conscientizar magicamente, então cabe ao público LGBT tomar posse do seu discurso e colorir as próprias palavras. Ou morrer tentando.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página. A primeira parte da série que analisa o discurso LGBT você lê aqui, e a segunda está aqui.

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Hoje acontece um debate sobre a produção de conteúdo jornalístico LGBT, no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro. Eu estarei lá falando sobre o tema, e convido a todos para assistir. Mais informações no evento do Facebook.

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No próximo dia 05, a nossa festa FABULOSA está de volta com a incrível Laganja Estranja, diretamente do programa RuPaul’s Drag Race. Os ingressos já estão à venda, basta clicar no link.

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