Isso não pode, menina!!!


É um incrível paradoxo a forma como a sociedade lida com a sexualidade feminina. Somos mais reprimidas sexualmente ao longo da vida, com todas as frases de “mulher deve se dar ao respeito”, “mulher não pode ser fácil”, “mulher pra casar e mulher pra comer”, entre outras. Ao mesmo tempo, temos a nossa sexualidade exposta e explorada: são as mulheres frutas, as ajudantes de biquíni e maiô em inúmeros programas de televisão, as revistas de mulheres nuas, em comerciais (especialmente os de cerveja). Nossos corpos são exaltados, mas nosso comportamento sexual, vetado.

venusÉ claro que isso cria uma dicotomia. Se você é mulher, explora seu corpo e sexualidade, você perde automaticamente o status de mulher direita. E se você não é direita, não serve pra casar. Mas não precisa nem trabalhar com o corpo não, sabe? Basta você gostar de sexo. Basta você se soltar e ser mais flexível, experimentar, buscar formas diferentes de prazer. Não pode. Isso é coisa de puta. E você até pode ser puta, mas sabe quem vai querer ter filhos e uma vida com você? Ninguém. Então, ou você é moça direita ou puta. Sem meio termo.

É verdade que pra fins de procriação, a mulher não precisa atingir o orgasmo para engravidar. O sexo nem precisa ser bom pra isso acontecer. Porém, sexo deixou de ter fins meramente reprodutivos, principalmente desde que inventaram a pílula. Assim, dá pra transar tranquilamente sem necessariamente reproduzir a espécie. E então se faz sexo pra quê? E a resposta é simples: prazer. Mas há um número absurdo de mulheres que sentem uma dificuldade imensa em chegar ao orgasmo ou nunca o experimentaram. De acordo com os estudos, cerca de 30% das mulheres estão nesse grupo. E ok, uma relação sexual até pode ser prazerosa e não acontecer a descarga orgásmica. Mas não é estranho que tantas mulheres não consigam nunca “chegar lá”?

Existem inúmeros fatores que podem influenciar nisso. Problemas – financeiros, hormonais, conjugais, relacionamentos, trabalho -, doenças físicas e psicológicas, e também nossas atitudes e crenças em relação ao sexo. E eu quero focar nessa parte: atitudes e crenças a respeito de sexo, resultado de anos de aprendizagem direta e indireta sobre o assunto. Desde o que aprendemos na escola, até o que pais, amigos, filmes, televisão e nossas experiências ensinam pra gente.

E crescemos ouvindo que mulher não gosta tanto de sexo, mas homem sim. Que mulher precisa de carinho e envolvimento e que sexo por sexo não é coisa nossa. Que devemos nos dar ao respeito. Que sexo é algo pra se fazer só pessoas especiais. Que dar de primeira é coisa de vagabunda e homem nenhum leva à sério. Que se um homem quer muito sexo com você é porque ele não te dá valor. Que se o parceiro gosta de fantasias é porque ele está insatisfeito com você. Que vagina é feia e tem cheiro esquisito e se for peluda então, é nojenta. Que não pode colocar a mão lá e se masturbar, também não pode. Que conforme ficamos velhas, perdemos a atratibilidade. Que depois que mulher vira mãe ela deixa de gostar de sexo. Que sexo não é tão importante assim numa relação. Que a iniciativa sexual tem que vir do homem. Que se você é muito sexualizada não é bom material para esposa. Que homem faz de tudo pra te comer e depois te joga fora.

Podemos acrescentar ainda as questões relacionadas à imagem corporal. A “mulher sexual” tem o corpo escultural, sem barriga, celulite, estrias. Tem seios fartos, bumbum grande, etc etc. Há toda uma exigência para ser sensual e gostosa. Ser atraente sexualmente. O impacto disso? Mulheres que acham que não despertam desejo por não se encaixarem nesse padrão. Que nunca se olharam nuas e nem sabem como sua vagina é. Que nunca se tocaram. E sentem vergonha na hora do sexo por medo da avaliação por parte do parceiro. Avaliação essa que pode nem ocorrer, mas que elas imaginam que sim. E só isso já é o suficiente para que a mulher se trave. E quanto mais preocupação, maior a dificuldade em se concentrar e consequentemente, em atingir o orgasmo.

E por um lado, temos os homens, sempre estimulados sexualmente e que esperam das mulheres uma performance digna de filme pornô. E do outro, mulheres que crescem tendo seu comportamento sexual tolhido e cheias de culpas e pudores em relação ao sexo. Enquanto reproduzirmos esses comportamentos e ensinamentos, a probabilidade é que ambos os lados se frustrem. E que as mulheres continuem tendo dificuldades em gozar plenamente algo que é tão natural e faz parte da nossa natureza.

Olha o que nos ensinam. Essas crenças são herança de um sistema machista, onde a mulher era tolhida e podada em vários aspectos. Mesmo com a revolução sexual e todo o novo entendimento a respeito do tema, ainda vemos uma série de mitos sobre a mulher e sua sexualidade. É necessário uma desconstrução dessas ideias tão arraigadas para que possamos encarar o sexo como atividade lúdica, prazerosa e que pode ser compartilhada com que nós quisermos, na hora que escolhermos. Afinal, amor é prosa e sexo é poesia.

Leia Vênus toda terça, aqui n’Os Entendidos. Não esqueça de curtir a nossa página.

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