Olho de boto, de Salomão Larêdo


Encantado, pode tudo em qualquer lugar. [Olho de boto, p. 90]

Na quarta-feira da semana passada, (06), Salomão Larêdo lançou na Livraria Fox, em Belém, o seu mais novo romance, Olho de boto, pela Editora Empíreo. Nesse novo romance, Salomão, que é autor de diversas obras nos mais variados gêneros literários, tem como leitmotiv o casamento entre dois homens no povoado de Inacha, que fica no meio da floresta amazônica, durante o período da Ditadura Militar. “Tudo” baseado em fatos reais. Sim, o lance do casamento é verídico e circulou nos jornais da região.

Estante2

11150787_813346465387321_6979573744612847155_n
Lançamento de Olho de Boto, de Salomão Larêdo, na livraria da Fox. Belém, Pa. Foto divulgação/ Editora Empíreo

O romance é qualificado como “contestador”, o que de fato é, e que desenvolveremos os motivos dele assim ser apresentado ao longo do texto, como também falaremos sobre uma outra adjetivação, a de que é um romance Homo(Ama)zônico.

A contestação já começa na própria composição do romance, a sua forma, nem um pouco tradicional, que aqui considerarei como sendo linear. A escrita é ágil, oscilando entre períodos curtos e longos com pouco uso ou uso exagerado de pontuação, ditando o ritmo, exagerada em seu relato e fragmentada, emprenhada de referências que se aglutinam, justapõe e que nem pertencem ao mesmo espaço geográfico ou tempo histórico, que vão se embrincando até formar algo: a narrativa, que é também um panorama dos hábitos e costumes da região amazônica e sua história. Um rio de proporções oceânicas.

Sobre essa não linearidade e peculiaridades da escrita, somos logo advertidos no início do livro, antes mesmo da narrativa começar, no texto O dito, o desdito, a desdita, o redito bendito em dez luas. Débito ou crédito?. Mas passado o estranhamento inicial, acostumamo-nos.

Ou, como diria o poeta português Fernando Pessoa: Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se. [Leia com sotaque português para ter o efeito desejado pelo autor, por obséquio]

É por isso que considero a escrita desse romance inserida em uma tradição dos movimentos de vanguarda como: o Futurismo, de Marinetti; o Dadaísmo, de Hugo Ball; e a Antropofagia, de Oswald De Andrade.

Catolicismo, pajelança, samba de cacete, pentecostalismo, tudo, ali, era uma mistureba só (p. 42).

A sociedade amazônica é pluriétnica-cultural-religiosa. Saca, bicho? (p. 176)

E mesmo em meio a tudo isso, o romance não se perde. O fio condutor, o casamento, continua lá, mantendo todas as coisas amarradas.

19592_813341282054506_6934178677481249321_n
Eu estava lá no lançamento, para pegar o meu exemplar autografado. Foto divulgação / Editora Empíreo

Aliás, o casamento de Inajá e Inajacy está já em andamento, quando o romance começa. Ou pelo menos estava. Acontece que, tudo tem início com um julgamento, a lá julgamento de Cristo, com direito a seu próprio Ponci(an)o. A via crucis, ou melhor dizendo, a via cruzes de Inajacy vai atravessar todas as quinze estações, até completar a sua paixão. Ou seja, a organização do romance está dividida em “quinze capítulos”.

E porque Inajacy está em julgamento?

Não é tão somente por ele ser um luziário (termo usado para se referir a homossexuais) ou querer se casar, mas por, também, afirmar ser mulher, o que é confirmado por seu companheiro, e é aqui que eu volto para a adjetivação “romance Homo(Ama)zônico”.

Que Inajá e Inajacy sejam do sexo masculino e, por isso, a princípio somos tentados a considerar como um romance homoerótico ou homoafetivo, ocorre que, diferentemente de Inajá, Inajacy acredita e afirma ser mulher. Isso faz toda uma diferença no modo como olharemos e “classificaremos” o romance.

Teu nome.

Inajacy!

Nome do teu pai:

(ficou em silêncio)

Nome da tua mãe:

Não quero responder.

Por que queres casar? Tu és homem?

Sou mulher, e toda mulher quer casar, ter filhos, família, casa, um marido, um lar. Eu quero isso, tudo isso e muito mais…

Mas o exame deu que tu és homem…

Já disse, sou mulher! (pág. 93)

 

Nome completo.

Num digo.

Você é homem ou mulher?

Se tu és homem, por que queres casar com outro homem?

Ela é mulhé.

Vocês se amam?

Sim, sinhô.

Como vais sustentar tua mulher e tua família?

Nós trabalhemo. (p. 193)

No que se refere ao enredo, mesmo que desconsiderássemos essa questão, o romance seria contestador por simplesmente trazer como enredo o casamento entre dois homens em meio a Ditadura Militar. No entanto, se apegar a esse detalhe é uma questão de visibilidadede de uma discussão muito mais profunda sobre identidade de gênero, o que torna o romance de uma relevância ainda maior e que faz com que o consideremos um romance “Trans(Ama)zônico”, como a rodovia que atravessa toda a região Norte do país, algo que está lá e que invisibilizamos.

Porque, o que é a Transamazônica no cenário político brasileiro? Ao que parece, nada. É dessa forma que temos tratado não só gays, lésbicas e bissexuais, mas principalmente as pessoas Trans, que dentre todas as siglas de LGBT, é a que parece sofrer muito mais com o descaso da falta de políticas públicas.

O caboco, desde o princípio, vem se fazendo a si mesmo, se pegando, se puxando à própria sorte, sem participação do Estado em nada porque não há serviço, emprego, renda, saúde, educação, transporte, saneamento; vive só (p. 226).

Considerar o romance por esse viés da transexualidade da personagem, que afirma ser mulher, a despeito de ter nascido homem, vai de encontro a transgressão da sua estética composicional, que vai de encontro ao Encantado. Porque Inajacy é um encantado (como se denomina algumas personagens da mitopoética amazônida), é alguém que está sob uma forma que não é a sua, como o Cobra Norato, por exemplo, e que precisa, pra assumir essa forma real, passar pelo ritual de desencantamento.

Assim, “O encantamento é a própria hipocrisia cultivada, daquela sociedade, de tal maneira que o desencantamento é o desmascaramento da farsa” (p. 190), farsa que , no caso de Inajacy vai de encontro ao que ela toma enquanto identidade de gênero, e não como uma forma corporal se apresenta.

Desmascarar é acabar com o sofrimento, que no caso ede Inajacy é a necessidade de “encontrar este homem que quebre […] [seu] encanto para se tonar (sic) mulher completa e ser uma pessoa; exstir, quero existir, quero voltar a ser mulher. Já fui, mearrependo de ter sido e não ter percebido que era e agora quero voltar e não posso, não passo no teste, ó castigo” (pp. 214-5)

Transgressão da forma e transgressão dos costumes, Salomão me faz recordar de outro Salomão, também inserido no movimento transgressor da contra-cultura, no Brasil. Waly.

Se Inajá e Inajacy se casaram? Se Inajacy se tornou mulher? E os reais motivos que levaram ao julgamento?

Bom, para saber isso, você terá que ler o livro.

E ai, curtiu? Compartilhe, comente, tuite…

E, para mais sugestões de livros ou debates sobre literatura e afins, acesse a minha página Folhetim Felino.

Previous DESEJO CONSTRUÍDO: Produção de Discurso LGBT - parte 2
Next MÍDIA ARCO-ÍRIS: Produção de Discurso LGBT, parte 3

1 Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *