BICHAS AMERICANAS: Produção de Discurso LGBT, parte 1

BICHAS AMERICANAS: Produção de Discurso LGBT, parte 1

Ser gay não é uma escolha e muito menos algo natural. É uma identidade política, uma categoria de classificação acionada socialmente, tanto por quem se identifica dessa forma quanto por quem a utiliza como ofensa. Se a história e a cultura dessa identidade sãos  meios pelos quais aprendemos “o que é ser gay”, a profusão de divas, drags, objetos de consumo e tradições importadas levanta a questão: somos bichas americanas?

DandoPintaSloganQuando produzimos conhecimento sobre um tema, entender o que é dito e o que é ocultado, além da FORMA de dizer, é parte fundamental do processo. Pensando nisso, a coluna Dando Pinta vem um pouquinho diferente nesse mês, com uma série de 4 posts que pretendem analisar a maneira como o conceito de “LGBT” é gravado no imaginário popular. Ao pensar em temas como a identidade gay na América Latina, a construção do desejo e da articulação política e nos papéis da mídia nesses processos, espero chegar ao fim do mês com um convite para que todos reflitam sobre “o que é” essa identidade, que em geral, assumimos depois de sermos “acusados” de possuir.

Maio foi escolhido porque no próximo dia 17 celebra-se o Dia Internacional contra a Homofobia, já que a data é a mesma da exclusão da homossexualidade da lista de doenças da Organização Mundial da Saúde – uma grande conquista política – em 1990.

Depois do levante de Stonewall – considerado o “marco inicial” do moderno movimento LGBT -, o efervescente caldeirão político dos Estados Unidos dos anos 70, que produziu as primeiras paradas pela “Liberação Gay” e os primeiros atos públicos da luta por reconhecimento e por igualdade. Nessa gênese, antes que se falasse na sigla LGBT, a palavra “gay” abrangeria o que entendemos por “diversidade sexual”, que é apenas um eufemismo para “não-hétero”. Por isso, hoje a representatividade é um importante campo de debate, já que  dentro do que entendemos como um “movimento”, é preciso medir forças com a preeminência masculina que coloca todos – lésbicas, gays, bissexuais e transexuais – como “tudo viado”.

No Brasil da ditadura, a figura do “bofe” machão, que era ativo com a “bichinha” – reproduzindo o modelo heterossexual – dava espaço para os “entendidos”, com uma relação de poder, afetividade e sexualidade mais igualitária. Com a abertura política, as ondas do movimento gay estadunidense arrebentaram em nossas praias, quando publicações como o jornal O Lampião da Esquina e grupos como o SOMOS começaram a tirar os homossexuais do gueto, ao mesmo tempo em que artistas como Ney Matogrosso – e o grupo Secos & Molhados – e os Dzi Croquettes ajudavam na flexibilização dos conceitos de masculinidade.

Na década de 80, a epidemia de AIDS aumentou o preconceito em relação aos homossexuais, enquanto impulsionava uma união política sem precedentes, necessária para que se enfrentasse uma crise tão grande. Mesmo assim, o crescente mercado do Pink Money faz surgir, na década seguinte, uma profusão de boates, publicações e serviços para o segmento, que demarcava o espaço social LGBT através do capitalismo. As paradas do orgulho se espalharam pelo país e a primeira década do novo milênio trouxe as primeiras conquistas, criando o cenário que conhecemos hoje.

A LGBTfobia se revela no discurso conservador que tenta limitar nossos direitos políticos, mas principalmente nos episódios diários de violência que cobrem de sangue a nossa história. Entretanto, gozamos de uma “tranquilidade vigiada” porque estamos presentes nas novelas e porque podemos casar, o que alimenta uma ilusão de segurança que só atende – quem mais? – o “gay ideal”.

bichas americanas Rupaul

É lógico que existe disputa ideológica entre as identidades sexuais. O homem gay é privilegiado quando é “discreto e fora do meio”, mas é virtualmente aceito quando se encaixa em um padrão cultural – e majoritariamente norte-americano – do que é “um gay”. A moda, a “sofisticação” de cosméticos e viagens, a guerra das divas pop e até o sucesso de RuPaul’s Drag Race… Tudo é parte da produção de um discurso sobre  “ser gay” que não reflete – e nem precisa, aliás – a realidade da maioria dos homossexuais brasileiros.

Será que o uso do termo “drag” ao invés do antigo “transformista” – falando de artistas se apresentando com roupas femininas mesmo, não de pessoas trans – é totalmente inocente? Por que a nova geração de drag queens prefere dublar os sucessos de Lady Gaga, e quando a música escolhida é nacional a performance é considerada “popular”, no sentido pejorativo? Obviamente que sucessos internacionais sempre animaram a noite, mas como essa enxurrada de viadagem importada interfere na nossa ideia de “guei nacional”?

Discute-se muito sobre as frustrações do “mundo gay”. Há homossexuais que não se identificam com essa cultura e sentem-se excluídos da definição – e falo de gente que se identifica como gay, não de bicha homofóbica que diz que não curte para fazer a macha. Há outros que sofrem por não atingir o padrão estético dos anúncios de cueca ou por não ostentar o telefone da moda, ou ainda por não ter a Torre Eiffel saindo do ombro na foto do Tinder. Ora, se tudo que vemos, lemos e ouvimos só mostra bichas brancas e saradas sendo lindas enquanto chove dinheiro, como podemos aceitar nossa realidade?

Por acaso, somos bichas americanas? Sim. Do sul. É hora de abraçar isso com orgulho e convidar as hermanas para escrever nossa própria história, trancando o pensamento colonizado no fundo dos armários que tanto lutamos para romper.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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