O Todomeu, Andrea Camilleri


Ariadne guarda um segredo, mais um dos muitos que vão são se amontoando no labiríntico sótão que é a sua vida, tal qual o seu Todomeu. E o Todomeu é seu refúgio do mundo. Um lugar para onde ela sente sempre a necessidade de retorno, como um lar. É onde ela mergulha no seu próprio mundo.

Estante2

O Todomeu OKEm O Todomeu, de Andrea Camilleri, autor italiano de mais de sessenta romances e vencedor de importantes prêmios literários, somos apresentados a nada usual vida de casal de Giulio e Ariadne.

Giulio, por causa de um acidente não pode satisfazer a esposa, muitos anos mais jovem, sexualmente, passa a pagar para que homens façam sexo com ela, saciando assim o apetite sexual dela, o que garante a harmonia da vida doméstica. Tudo feito com o consentimento dos envolvidos e com regras muito bem estabelecidas.

No entanto, algo aparece surgir para abalar a existência de Ariadne, que no fim terá que, como sempre, escolher um caminho que pode levar ao fim de tudo. Algo que está intrinsicamente ligado com o Todomeu e tantos outros segredos de seu passado, que numa rememoração que intercala com o presente, vão serpenteando, zigue-zagueando, como um jovem perdido em um labirinto, que tem que ir descobrindo onde fica a saída. Lembranças essas que seu marido ignora completamente.

Aliás, ignora não por ser inocente, mas justamente por intuir que há algo de perigoso e, por querer permanecer protegido. Afinal, como ele mesmo diz a certa altura do romance para esposa, ele não é nenhum Teseu para entrar no labirinto que é o passado de Ariadne e, assim enfrentar o Minotauro dela.

A referência ao mito de Teseu e o Minotauro é óbvia e permeia toda a construção do romance. Se Ariadne, nome da personagem que ajuda Teseu a sair do labirinto, aqui, é a personificação do monstro mitológico, Giulio, assume o lugar do Governante da Ilha de Creta, o Rei Minos, que instituiu o imposto, no qual jovens eram mandados anualmente para o labirinto construído por Dédalo e Ícaro, e que servia de morada para o Minotauro. Assim, nessa “releitura” do mito, parece não haver herói.

Sobre a imagem predatória que se constrói de Ariadne, no entanto, penso em outro mito que do qual ela também é partícipe, o do duelo em tecelagem com Atena. Na respectiva narrativa, paira no ar a dúvida de quem seja a melhor tecelã, se a deusa Atena ou a mortal Ariadne. Assim, elas disputam. No fim, ao ser preterida pela mortal, Atena a transforma em uma aranha, condenando-a a passar o resto da vida tecendo.

Assim dois mitos se misturam. A aranha predadora, que sob a tutela do rei, se esconde em um lugar só seu e que tem como guarda o Minotauro.

A aranha enreda suas presas em sua teia e as mata. O Minotauro enreda suas vítimas no labirinto e as mata. Ariadne enreda suas vítimas com seu poder de sedução, antes de perdê-los. Essa é a sua natureza e, por isso, não pode ser culpada, já que seus atos não são oriundos de um sentimento de moral, de consciência do que faz. Assim, vive a vida como ela vai-se lhe apresentando. Haja vista que “nem tudo na vida é como a gente quer” (p. 138)

O Todomeu é uma publicação da Bertrand Brasil, do Grupo Editorial Record, e tem 140 páginas.

Embora apresentado como um romance de “perversão moral sem precedentes” e “com linguagem fluida e fascinante na qual não há virtuosismo descritivo”, ele não é tão empolgante como querem parecer.

A linguagem é sim fluida, mas essa despreocupação com a descrição traz alguns problemas para a narrativa, como a compreensão do fascínio que ela, Ariadne, injeta em suas vítimas, levando-as a cometerem, no mínimo, atos bastante ridículos no furor de seus desejos. Também não me pareceu que ela viva de fato um dilema, ela é muito influenciável, no final das contas, o que faz com que haja uma perda no fascínio da personagem. Aliás, o Todomeu embora tenha sempre existido para a jovem não têm origem, como se fosse algo fora do tempo.

Contudo e por fim, O Todomeu, é um romance que, embora não cause o frisson de um thriller psicológico e sexual, ainda é uma boa recomendação para leitura, que pode ser feita em uma tarde qualquer.

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