Como transar com um ator pornô abalou minha moral…


Na foto, Fraçois Sagat – que não é o personagem dessa história – fotografado por Arélien Dupuis.

Eu transei com um ator pornô. Talvez isso soe excitante, e para algumas pessoas certamente é uma fantasia, mas para mim foi broxante. Falo de uma broxada retroativa, porque foi em 2010. O ato em si foi ótimo, mas nesses cinco anos passados desde que eu e ele estivemos na cama, nossas vidas tomaram rumos muito diferentes. Eu já o tinha encontrado casualmente, andando pela praia ou pelo shopping, mas agora nos reencontramos no meu computador. Enquanto eu estava sentado aqui, na segurança da minha casa, e ele estava do outro lado da tela, com o punho de um cara enfiado na bunda.

DandoPintaSloganSempre me orgulhei de ser liberal. Acho ridículo quando uma bicha é moralista, porque me parece um tipo bizarro de servidão. Uma vontade masoquista de se adequar à norma, como se fôssemos dignos da exclusão que sofremos. Sempre me orgulhei disso. Porém, quando vi aquele menino fazendo sexo por dinheiro, em um filme gravado para meu “entretenimento”, desabei.

De repente, depois de velho, fiquei “careta”?

Não foi moralismo ou alguma coisa do tipo que cortou meu tesão. Não tenho nada contra pornografia e muito menos contra a prostituição. Tenho defendido – e provavelmente o farei até morrer – que todo mundo é livre para fazer o que quiser, especialmente em relação a sexo, desde que outras pessoas envolvidas sejam capazes e estejam de acordo. Vamos gozar gostoso de amor e de alegria, pois isso é fabuloso!

Meu problema com esse episódio foi conhecer o menino por trás do nome artístico, e não conseguir deixar de ver aquela cena como mais um ato de uma história triste. Rapaz bonito, do interior, sem mãe e brigado com o pai, que veio para o Rio tentar a sorte sem ter nem o ensino médio completo. Morador de favela, trabalhando de caixa em uma boate. Segundo ele próprio, sem perspectivas de futuro. A gente dançava pop, conversava sobre quadrinhos e só bebia refrigerante. Comigo a vida era mais leve, ele dizia – pelo menos na semana que durou nosso contato. Depois ele começou a malhar, a “pegar corpo”. Tirou umas fotos profissionais, disse que seria modelo, mas acabou novamente atrás de um balcão. Então, um vídeo de sexo vazado na internet o fez perder o emprego, ao mesmo tempo em que lhe abriu as portas da indústria pornográfica.

Entre esse dramalhão mexicano e um roteiro pornô, chego a sentir saudades da tosquice que é ver um entregador de pizza gostosão fazendo graça com a calabresa… De alguma forma, a história desse rapaz acabou com minha ilusão de que os moços nos vídeos seriam – sei lá – universitários sacanas, apenas aproveitando o tempo livre para ganhar dinheiro de uma forma divertida.

“Ah, mas você está falando de você, sem nenhum respeito pela história dele.”, alguns vão me acusar. Bem, eu liguei e ele está ótimo. Só reclamou de estar esperando muito para entrar em cena – sim, ele estava gravando na hora – e comentou que ganha mais por uma cena do que ganhava em um mês do antigo trabalho. Me preocupa pensar que ele não esteja se protegendo, que talvez não perceba que essa escolha profissional pode não ser a mais certa para seu futuro, que mesmo que ele esteja em outro país e outra área de atuação, essas cenas jamais serão apagadas e sempre vai ter alguém para descobrir. Será que ele está juntando esse dinheiro? Será que eu, na minha realidade de baixa burguesia, com minhas escolhas validadas e dignificadas pelo Foucault ou pelo Marx – e sem um puto no bolso, diga-se de passagem -, não o julgo com uma pena elitista que só revela o meu moralismo?

É claro que sim. Não ignorava que alguns atores pornô têm histórias semelhantes, até porque há um longo histórico envolvendo drogas, prostituição, prisões, as DST e suicídio por trás dessa indústria, superado apenas por Hollywood. Logicamente que existem pessoas bem resolvidas também, que optam por essa carreira conscientemente, mas ninguém escapa do estigma associado a qualquer coisa que envolva sexo, então mesmo para eles não deve ser sempre um mar de rosas. A questão é: o que tenho a ver com isso?

A resposta? Nada.

Espero que meu amigo esteja bem e que saiba que pode contar comigo se precisar. Ainda penso nele quando me canso de escrever e procuro pornografia na internet, mas sei que em pouco tempo voltarei ao normal. Em pouco tempo, estarei apenas ejaculando o estresse de meus dias para fora do meu corpo, sentado segura e confortavelmente em frente ao computador, enquanto ele e outros rapazes terminam – literalmente – fodidos. Só espero ser capaz de olhar para esses homens e enxergá-los como humanos, para além dos corpos bonitos e dos roteiros ridículos. Espero não me julgar melhor que eles. Espero não perder a consciência da minha posição privilegiada, reconhecendo que tenho a sorte de poder escolher – entre o sagrado e o profano – em qual lado da tela estou. E vocês também.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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