Padronize-se ou pereça


Acho bem interessante quando as pessoas falam: “ai gente, mas é questão de gosto…não acho isso bonito”. Ok, beleza, você tem um gosto pessoal, entendo isso. Mas você já se perguntou porque acha determinadas coisas bonitas e outras bem feias? Não? Então senta aqui e vamos bater um papo sobre isso, tá bem?

Nosso “gosto pessoal” em termos de música, de roupa, de beleza e de estética, é resultado das interações que temos ao longo de nossa vida. Bem como outras tantas coisas, ele também é construído socialmente, seja através de ensinamentos diretos, seja através de meios de massificação, seja através de experiências subjetivas. Aos poucos, vamos sendo moldados a ter aquilo que entendemos por gosto.

venus

Para falar de padrões de beleza e como influenciam o seu “gosto”, precisamos falar do papel da mídia . Quando eu era criança, havia várias apresentadoras loiras. Uma morena. Nenhuma negra. Eu olhava ao redor na minha escola e minha realidade era exatamente contrária a lógica da televisão. Muitos negros. Pessoas brancas de cabelos escuros e crespos. Só lembro de uma loira de olho verde na minha turma. O interessante era observar como ao menos metade das meninas queria alisar e clarear os cabelos. Queriam ser iguais às apresentadoras loiras da televisão. Até eu mesma quis ser loira. Já havíamos aprendido que ser loira era um diferencial. Era um padrão de beleza a ser alcançado.

Por conta das experiências subjetivas de minha vida e das aprendizagens que tive, de alguma forma me distanciei desse padrão. Porém, ainda assim, durante um bom tempo, ele continuou influenciando na minha vida. Eu não mais queria alcançá-lo, queria apenas ser o oposto. Distanciar-me completamente disso.

Então, qual a função desses padrões de beleza? Oras, é excluir. Padrões de beleza excluem. E ao fazê-lo, criam a necessidade de consumir para tentar se encaixar naquilo. E pronto, você convence as pessoas que é aquilo que as torna bonitas e desejáveis. E elas PRECISAM ter ou ser aquilo. Para se encaixarem. Para pertencerem.

Hoje há um movimento de valorização do cabelo crespo e cacheado, mas há pouco tempo houve um boom no mercado cosmético capilar com as escovas progressivas e praticamente todo mundo tinha o cabelo lisinho. Todo mundo padronizado. Esse é um exemplo dentre tantos de como buscamos desesperadamente nos padronizar.

E isso acontece pela nossa necessidade de nos agruparmos. Seja no grupo mainstream, seja em grupos menores ou alternativos. A ideia de pertencimento a algum grupo nos é extremamente atrativa. Fora que guardamos a ideia que se estivermos mais próximos ao padrão de beleza do grupo escolhido, aumentaremos nossa atratibilidade para aqueles que nos são interessantes, além de afastar os que não compartilham do mesmo gosto, facilitando a busca por parceiros.

O grande problema ao se criar padrões de beleza que excluem a maioria das pessoas, é que nem todas as pessoas querem fazer parte dos “excluídos”. Elas querem ser “normais”. E na busca por essa “normalidade”, elas podem acabar desenvolvendo patologias físicas e psíquicas graves, tais como a anorexia, bulimia, vigorexia. Pode também levar ao desenvolvimento e manutenção de uma autoimagem distorcida e problemas graves de autoestima.

Não é a toa que os consultórios de médicos e de psicólogos recebem cada vez mais pessoas com problemas gerados por essa busca incessante e muitas vezes infrutífera, desses padrões. E embora o número de homens sofrendo deste mal esteja aumentando, as mulheres ainda são maioria. E estão desenvolvendo esses problemas cada vez mais cedo. Preocupações com a magreza, cabelos, unhas, roupas e tudo que compõe esses padrões são observados até mesmo em crianças. E muitas vezes estimulados por pais que também sofrem dos mesmos problemas.

E não é incomum que esses padrões sejam vendidos com um discurso de “saúde”. Como a crença de que ser magro é ser saudável. O que faz alguém saudável é um conjuntos de hábitos e atitudes que vai além da aparência física. Mas esse discurso acaba aumentando ainda mais a necessidade de buscar esse padrão. Já reparam na quantidade de pessoas fazendo cirurgia bariátrica? Pessoas que nem mesmo tentaram outros métodos, apenas querem alcançar esse padrão de forma imediata?

E o número crescente de cirurgias plásticas estéticas em idades mais precoces? Pessoas se submetem a cortes, mutilações, a processos invasivos e perigosos apenas para se encaixar num ideal de beleza socialmente construídos e que pode, a qualquer momento mudar. Como já mudou diversas vezes ao longo da história.

Em vez de aceitarmos nossa diversidade, parece que queremos acabar com ela. Colocar todo mundo igual. Do mesmo jeito. No padrão europeu de qualidade humana. Se você não se encaixa, precisa se esforçar. Tem que ter #forçafocofé. Padronize-se, ou pereça. Será que precisamos mesmo sermos todos iguais?

Obs: A autora não se opõe às cirurgias bariátricas, mas como em qualquer procedimento

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Obs: embora existam muitos critérios para a obtenção da cirurgia bariátrica, criou-se a fantasia no imaginário das pessoas que a cirurgia é a melhor/ mais rápida solução para a obesidade. E relatos de casos de pessoas que recebem sugestão de ganharem mais peso para tentar a cirurgia vem aumentando. A autora acredita que o procedimento realmente deveria ser a ultima opção e para casos extremos, visto que o pós-operatório e as mudanças no estilo de vida pós-cirurgia são radicais.

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