POLITI-CAGUEI: Desarticulação LGBT à serviço da heteronorma!


Ah, os gays… Esses homens bonitos e bem vestidos, protegidos por um escudo de consumo e pela idolatria à masculinidade, além da reprodução do moralismo hétero! Misóginos e lesbofóbicos, porque “assunto de mulher não tem graça”. E transfóbicos, claro. Afinal, pessoas trans não são pessoas. É, parece que o “Movimento LGBT” é só “GGGG”. Se bem que até mesmo nosso único deputado assumido é alvo preferencial, que viado não vota em viado, então não tá fácil pra ninguém…

DandoPintaSloganFalta empatia social entre os gays, e isso só serve à heteronormatividade. No ocidente, os cidadãos LGBT vivem o paradoxo de serem forçados a assumir uma identidade estigmatizada que lhes é atribuída pela sociedade. Além disso, o único caminho na luta pela igualdade está em afirmar a própria diferença. A isso, some o fetiche individualista que norteia nossa metade do mundo pelos últimos séculos, e talvez fique um pouco mais fácil de entender aquela que parece ser nossa principal batalha: a interna.

Ninguém escolhe seus desejos. É possível decidir se daremos vazão a eles ou não, mas o diálogo entre indivíduo e ambiente que termina formando vontades e identidade de alguém, assim como aquilo que a sociedade considera digno ou indigno, não nos pertence. O tempo todo temos sede de alguma coisa – não falo apenas de sexo – e julgamos se é um desejo possível ou não, socialmente aceitável ou não, terminando ao definir as regras que pesarão sobre as gerações futuras, em um ciclo eterno. É por isso que assumimos identidades políticas.

Ninguém nasce LGBT, e muito menos hétero! O discurso do Born This Way é usado politicamente para “desculpar nosso pecado”, simplesmente porque ninguém opta por ser a “escória” do mundo. Ele faz eco com a patologização das sexualidades “desviantes” e com a busca de uma  resposta genética – e de uma “cura” – para esses desejos. Igualmente, o marketing em cima do Casamento Igualitário – batendo na tecla de que os LGBT formarão suas famílias de acordo com o modelo heterossexual – é uma estratégia de negociação.  É política. É questionável.

A prática homossexual é um fato da natureza, não apenas em nossa espécie. É provavelmente anterior ao primeiro Homo Sapiens e certamente vai ultrapassar o último. Faz muito pouco tempo que nossa civilização se utilizou do Direito e da Religião para, primeiro, criminalizar esse comportamento, e depois para cobri-lo de uma identidade própria, como se a sexualidade fosse o marco definitivo de alguém.

Acontece que a busca de uma definição ou de uma explicação para qualquer coisa que não seja o “sexo permitido” – heterossexual, reprodutivo, sacramentado – só existe para reforçar essa posição privilegiada. Assim nasce o estigma do pecado, da anormalidade, que resulta na rejeição e na violência de que as pessoas LGBT são vítima diariamente. É esse o mecanismo que despe essas pessoas de sua individualidade – justamente em uma sociedade tão egocêntrica – para transformá-las em um alvo impessoal e abjeto, como se elas não fossem pais, filhos, irmãos… Pessoas!

Com esse cenário, é fácil entender a falta de articulação política entre os LGBT. E falo disso por ser uma questão premente, mas o problema maior é que esse resultado seja apenas um reflexo dessa rejeição que nos martiriza de dentro para fora. É por isso que existe viado homofóbico, misógino, lesbofóbico e transfóbico. Somos todos párias, mas na hora de “segurar o rojão” fica mais fácil passar discreto para não incomodar, “se dando ao respeito” enquanto lésbicas e pessoas trans estão sangrando. Ora, não é a mesma lógica que a heterossexualidade utilizou para se definir como NORMAL e, especialmente, desejável?

O “beijo gay” da Fernanda Montenegro não incomoda apenas por ser homossexual ou porque uma senhora não vira fetiche como a Giovana Antonelli. Ele incomoda porque é real. Por que mostra algo que existe e que vai resistir a qualquer bancada fundamentalista, seita ou gangue neonazista. Por que mostra que a heteronormatividade NÃO é o único caminho, a única coisa válida.

É assim que fazemos política sem querer.

Querendo ou não, toda pessoa que se reconhece como LGBT está assumindo uma identidade política. Muitas vezes, o simples fato de sair à rua já causa uma revolução, enquanto nossos beijos chocam e fazem pensar. Somos livres para escolher como usufruir da nossa sexualidade, mas é impossível nos livrar do lugar social emprestado à ela. Está na hora de pararmos com a guerra entre nossas cores e entendermos de uma vez por todas que o arco-íris só é bonito pelo conjunto. Quando isso acontecer, talvez se forme uma “Bancada LGBT” na câmara e tenhamos um pouquinho mais de força.

Essas identidades nos foram impostas. Está na hora de assumi-las com orgulho, tomando as rédeas do nosso destino. A revolução será lésbica, será pintosa, será travesti, será bi e também não-binária. Será LGBT, ou não será.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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Provando que o amor é mais forte que o ódio, a página BeijOstentassaum vai promover, nessa sexta, um Beijato LGBT em repúdio a um recente caso de agressão em Botafogo, Zona Sul carioca.

Logo depois do ato, os gritos de orgulho vão continuar na celebração da FABULOSA, a festa d’Os Entendidos. Em sua segunda edição,  o evento faz parceria com o Tem Local? – site que vai mapear a LGBTfobia em todo o país – para gritar que #NossoBeijoÉPolítico e lançar oficialmente o novo espaço de denúncia.

No sábado, o protesto vai para Nilópolis, na Baixada Fluminense, ocupando a Praça do Chafariz.

Você pode se informar sobre todos os eventos clicando nos links (acima, em negrito) ou acompanhando a transmissão ao vivo através do nosso twitter, @osentendidos. Leia a coluna Dando Pinta todas as quartas e não esqueça de curtir a nossa página.

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