Branco só compartilha m*rda


Na última semana as redes sociais foram inundadas por memes “de humor” onde o termo “nego” é usado para generalizar atitudes condenáveis em outras pessoas. “Nego só inventa”, “nego não cresce”, “nego só faz merda” e um bando de outras combinações. Curiosamente, todos esses memes são ilustrados por pessoas negras. Todos. Nos exemplos dados, consecutivamente: um negro cientista, um negro anão e um negro sentado no vaso sanitário. Hilário, né? Só que não…

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Tenho que confessar que me impressionou a criatividade de alguns e que até ri das lógicas mirabolantes que não me embrulharam o estômago. No entanto, em momento algum ignorei o racismo latente dessas imagens. Talvez seja fácil fingir que não percebeu pra quem já se convenceu de que racismo não existe mais ou que é um problema que não lhe diz respeito. Contudo, sendo versado nos debates sobre raça, não tive como achar que isso merecia o meu aval através de um compartilhamento.

Sei que pra muita gente é só humor inofensivo e um exercício do direito a livre expressão. Barf! Pior que esse argumento é quando dizem que o termo está sendo usado carinhosamente nessas frases. Melhorem! Como se negros fossemos incapazes de saber a diferença. Como se essas frases fossem muito afetuosas e brasileiros tivessem o hábito de chamar a mãe, independentemente da cor, de neguinha. Como se o vocativo preferencial a negros não fosse: “Ei, moreno!”.

De qualquer maneira, coincidentemente, ninguém do meu convívio me enviou um exemplar desse fenômeno viral. Ninguém. Suspeito que por temerem que eu apontasse o racismo que eles, cinicamente, fingem não ver e acabasse com toda a graça pra eles. Acuso de cinismo porque para acharem que eu poderia interpretar tais memes como racistas, é porque alguma consciência da presença dessa vez mensagem eles tiveram. Se fosse apenas uma piada inocente não haveria motivos para alguém hesitar e me poupar de um possível desconforto. Ou haveria?

Pra quem ainda não sabe o racismo é uma ideologia que, entre outras coisas, estrutura hierarquia entre as diferentes identidades étnicas/fenótipas de uma sociedade. Sabendo disso fica evidente o porquê de negros estarmos no subsolo da nossa pirâmide social – que enaltece a branquitude mesmo não sendo tão branca quanto gostaria. Portanto, não é mera coincidência que todos os memes possuam mensagens depreciativas e condenatórias ilustradas por negros, afinal basta olharmos pra TV ou ler livros de história para acreditarmos que os negros nunca fizeram nada de bom. Não servimos nem para heróis, nem para doutores, ou escritores, cineastas, cientistas, enfim, que sejamos capazes de contribuir com nada de relevante e significativo para a humanidade. Até porque, não são os brancos que fazem tudo nas coxas, que se não sujam na entrada o fazem na saída, que fazem serviço de preto etc. #BrancoSeFazDeTrouxa

O fato da graça deixar de ser a mesma caso os mesmos memes tivessem sido ilustrados por pessoas brancas também deve ser obra do acaso. Afinal, a graça está nas sacadas de comédia e não no fato existir um preconceito de quatro séculos que, de tão enraízado, já se tornou invisível. Parte do cotidiano. Indissociável da nossa cultura bem antes da internet existir. Motivo até de piada. #BrancoRiDeCadaCoisa…

O que me incomoda nessa história não são os risos e a viralização em si. O que me intriga é a aparente inocência dos autores responsáveis e dos seguidores que assinaram em baixo esse ato racista por entretenimento e com omissão. Como disse, não tem como alguém falar que o racismo não está lá. É uma leitura possível a todos. Se de fato não estivesse, não seria necessário taxar de humor ou dizer que não é bem por aí. Não  haveria o que discutir nem o que contornar. Agora, o mais impressionante é que pela primeira vez  imagens de homens negros se tornaram populares e foram super compartilhadas e ninguém se surpreendeu com isso. Mesmo pessoas negras não sendo populares em nenhuma produção midiática no Brasil. Somos escassos nas novelas, nas capas de revistas e de repente um monte de preto  brota no WhatsApp e ninguém vê nada demais. Vai entender…

Aos que vierem defender o humor e a liberdade de opressão, peço que me envie antes alguma piada sobre a Rainha da Inglaterra, o Bill Gates ou sobre ser branco em geral – sem apelar pros infantis “leite azedo” ou o que valha. É muito fácil fazer comédia com o que a sociedade acha ridículo e execrável, agora com o admirável e invejável… O desafio é maior e mais impactante.

Para futura referência, caso surja a dúvida sobre algo engraçado ser politicamente ignorante, procure trocar os personagens. A piada teria a mesma graça se o motivo da chacota fosse um homem branco, hétero e rico? Se a minoria fosse judia? Se sim, é bastante provável que não há discriminação. Se não, saiba que você,  ao rir,  faz parte do problema. Porque, ao que parece “nego” se refere a qualquer tipo de coisa. “Nego” é sinônimo de “qualquer um”, enquanto brancos… Brancos são uma tela igualmente branca cheia de positividade, clareza, otimismo, perfeição e racismo até provas do contrário. É inédito na cultura popular resumirmos pessoas brancas em um termo único. Nem todo branco é azedo, nem elite, coxinha, psicopata ou passível de um estereótipo único. Quem figura de sinhôzinho, jamais será nego. Sacou? Tudo bem se não.  #BrancoNãoEntendeMesmo!

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