Não vai ter Peru nesse natal!


Essa semana descobri que veganos, ativistas da vida animal e a bancada evangélica torcem por um mesmo objetivo: a proibição dos rituais com sacrifício animal das religiões de matriz africana. E não só isso, descobri também que essa profanação está em discussão no mercado de favores políticos do nosso legislativo. Um momento triste para quem achava que veganismo significava oposição aos valores do conservadorismo gospel.

OPosto

Como é possível que o mesmo coletivo – que consegue associar a luta contra o racismo, o machismo e a homofobia com a dos direitos dos animais – não se questionar quando passa a dividir pauta de reivindicação com outro grupo reconhecidamente retógrado? Será que não sentem o ranço de intolerância religiosa no ar? Cadê compaixão com a identidade cultural de um povo que já foi tratado como gado sem direito a cultuar a própria religião? Será que eles acham que só o candomblé sacrifica animais?!

Uma das coisas chatas de ter me tornado vegetariano é que de vez em quando me pego tentando contabilizar quantos animais precisaram morrer até que eu tomasse essa decisão. Sei que é uma conta impossível, mas toda vez que passo pelo setor de frios e de congelados do supermercado não consigo evitar. Fico imaginando quantas galinhas foram abatidas para todos aqueles sacos de coração, quantos porcos são necessários para processar 1kg de presunto e por aí vai. E num desses cálculos me perguntei quantos perus são sacrificados para comemorarmos o aniversário de Jesus. Uso o “nós” porque conheço muito ateu que não dispensa pernil, peru ou otras carnes nas festividades de fim de ano.

Até onde eu sei, o antigo testamento compartilhado entre judeus, árabes e cristãos nunca foi um livro vegano. Inclusive, nela há recomendações específicas sobre o consumo de certas carnes, assim como a condenação de alguns atos sexuais, o estabelecimento da submissão feminina e o tratamento divino dado a escravidão que é descrita como algo natural e irreprovavável.

Quem decide quais rituais de abate são aceitáveis ou não? Tenho total certeza de que uma única loja do KFC sacrifica muito mais galinhas em uma semana, que o povo de santo do país inteiro em um ano, se não mais. Não tenho dúvidas que uma pizzaria requer muito mais porcos mortos por semana para a sua calabresa que qualquer santo africano.

Não estou dizendo que veganos devam ser incoerentes com suas crenças e abrir mão disso, só espero que percebam que se evangélicos conquistarem isso, não há interpretação vegana que deveria considerar isso uma vitória. Proibir e condenar um ritual de fé e permitir a pesca e o abate de cordeiros próximo a Páscoa não é injustiça. É retrocesso. É intolerância religiosa! E, aprofundando um pouco, um caso notável de racismo.

Até onde sabemos, o nosso estado é laico, o que significa – ou deveria significar que – se o povo de santo tiver que perder o direito de homenagear Iemanjá ou quem mais for da maneira que couber, o justo seria que deveria ser proibido vender qualquer tipo de carne nas ceias de Natal. Nas festividades de fim de ano  nenhuma mesa cristã deveria ter Chester, nenhuma mesa judia deveria ter brisket, nenhuma ceia árabe deveria ter fasulia ou bamia e assim por diante.  pernil ou o bicho morto que for se o problema é realmente com o sacrifício de animais em nome da fé. #PáscoaVeg #NatalVeg #RamadanVeg #HanukkahVeg

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