“Ah, mas eu te quero” (e você tem que ser meu)


“Um dia você ainda vai ser minha “. Levante a mão quem já ouviu esse discurso. Quem já teve um admirador, que manda mensagem, flores, que faz questão de dizer e provar a todo custo que sim, que é o grande amor da sua vida? Levante a mão quem já usou essa frase. Quem, diante de uma negativa amorosa, já exclamou que “um dia você ainda vai ser meu”?

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Vemos vários exemplos diariamente: novelas, livros e seriados constantemente trazem personagens apaixonados, completamente devotados a conquistar seu objeto de desejo. Os esforços empreendidos são imensos, muitas vezes superando seus limites pessoais. Tudo “em nome do amor”.

E a mensagem que isso passa? Oras, no amor é preciso ter persistência. É preciso “dar valor” a outro. É preciso correr atrás. E claro, se você se empenhar ao máximo, terá sua recompensa. Vai  “ganhar” o coração do seu grande amor. Porque geralmente é assim. Ao menos, na ficção.

Mas o que leva um indivíduo, diante de uma negativa amorosa, a insistir e investir energia em alguém que não está na mesma sintonia? Não estou falando de quando há diferença nos investimentos iniciais. Às vezes, um lado coloca um esforço maior mas o outro também investe. Há uma certa “reciprocidade”. Falo de quando o outro demonstra claramente sua falta de interesse, não investe de forma alguma, e as vezes sente-se incomodado com isso.

“Mas oras, se meu sentimento é verdadeiro, o outro vai perceber isso. Se eu der valor, uma hora o meu valor vai ser reconhecido e aí sim, seremos felizes para sempre.” E quanto maior o investimento e o esforço, maior a probabilidade de frustração. E de desperdício do seu tempo.

Veja bem. Seu “valor” como pessoa não deveria se basear somente em sua atratibilidade por outra. Até porque os mecanismos da atração, da paixão e do amor, ainda são controversos na literatura científica. Então, a pessoa pode até ver em você uma série de características legais, pode até realmente gostar de você, mas ela não quer te namorar. Falta algo que às vezes nem ela entende.

Autoestima vai além da quantidade de pessoas que querem ficar com você. Está ligado a forma como você vê a si mesmo, as suas autorrealizacões, ao que você consegue conquistar objetivamente. Medir sua autoestima e seu valor com base em algo tão imprevisível quanto o amor/interesse de alguém é uma porta aberta para frustração. Fora que isso leva a uma outra ideia tão problemática quanto essa: “se o relacionamento acaba, é porque perdi meu valor. Não fui capaz de prover o que o outro necessita“. E é ai que começa mais um caminho para a frustração e eventualmente, a raiva.

Claro que receber uma negativa ao nosso desejo gera um sentimento de frustração. Toda vez que queremos algo e não conseguimos, a frustração aparece. Quando entendemos que não importa o quanto desejamos algo, não existe nada que garanta que nossa vontade deve ser satisfeita, essas frustrações ficam mais leves. Logo se levanta a cabeça em busca de novas oportunidades. Porém, quando acreditamos que para conseguir algo, basta querer e que se algo nos impede de conseguir isso, a “vida está sendo injusta”, tudo muda. Uma raiva domina, e parece que não há outra alternativa viável a não ser a que foi negada.

Nao existe ainda uma forma de garantir que nosso desejo/paixão/amor seja correspondido. E ai, quando a pessoa nega isso a você, o que você faz? Cisma que é isso que quer e perde um tempo precioso tentando convencer o outro que ele está errado e você é quem sabe melhor. Isso em vez de olhar ao redor e gastar seu tempo investindo em algo/alguém mais produtivo.

Quando o sentimento é recíproco, demonstrações de afeto são, geralmente, bem-vindas. São desejáveis e prazerosas. Mas quando não, podem ser desconfortáveis para o outro, principalmente por não poderem ser retribuídas. E há, ainda uma noção que somos responsáveis pelo afeto que os outros nutrem em relação a nós. O que fazer quando alguém sente algo que não podemos retribuir? Se há uma indiferença, somos cruéis; se há uma tentativa de cordialidade, pode ser interpretado como um sinal verde para investidas.

Sim, porque quando acreditamos muito em algo, nosso cérebro se esforça para encontrar evidências de que aquilo é verdade. Distorcemos situações, selecionamos pistas, desqualificamos outras, tudo em função de manter aquilo como verdade. Quantas vezes não vemos aquela pessoa apaixonada que interpreta o sorriso desconfortável do outro como um sinal que a investida foi apreciada? Ou ainda quando insiste-se em resignificar atitudes usando certos dados como justificativa?

O clássico “ah, mas  no último relacionamento ele sofreu tanto, agora está com o coração partido, com medo de se relacionar”. Que já ouvimos ou dissemos inúmeras vezes quando percebemos que o interesse da pessoa não passa de algo mais momentâneo ou desapegado? Essa e muitas outras desculpas para não admitir que “fulano não está tão a fim de mim quanto eu gostaria”.

Essa cultura do “dar e receber valor” baseada na sua “habilidade” de conquistar alguém acaba reforçando a ideia de que para se ter valor, você precisa se relacionar romanticamente com alguém. Que ter alguém completa você. E ser apenas você te faz insuficiente. E se “ninguém” (convenhamos que nunca é ninguém. Sempre tem alguém interessado, mas geralmente, quando isso acontece, dá-se um jeito de desqualificar “ah, mas ele quer pegar todo mundo” ou “só quer me comer” etc) quer namorar você, isso anula todo seu valor enquanto pessoa. Se assim fosse, só pessoas legais namorariam. Olhe ao redor e me diga: quantas pessoas “legais” estão solteiras e quantas “chatas” namoram?

A consequência disso é que inúmeras vezes as pessoas perdem seus limites pessoais, sujeitam-se a uma série de situações desagradáveis e até mesmo humilhantes, autorizados por esse suposto sentimento e pela noção que amor de verdade supera tudo. O amor, que deveria ser prazeroso, vira uma competição. E não é incomum que pra ganhar esse amor, acabe se perdendo um outro amor que deveríamos prezar acima de tudo: o amor próprio.

Leia #Vênus todas as terças aqui, n’Os Entendidos, e não esqueça de curtir nossa página.

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