DANDOPINTATOR – O fabuloso gerador de tudo que você precisa dizer!


CULPADO! O réu confessa seu crime! É repetitivo como um disco riscado – olha aí, entregando a idade – e ainda insiste no mesmo tema. LEAVE PINTOSAS ALONE! Em sua defesa, que ingenuidade, uma única justificativa: a culpa não é minha, mas sim da homofobia!

Será o fim desta coluna, condenada por repetição? Ela tornar-se-á nula? Se não dá mais para dizer a que veio, entre para o time “discreto e fora do meio”. Calma, calma… Não há motivo para desespero, pois do horror criativo uma ideia me veio! Os fãs leitores poderão dar o recado, espero, com o DANDOPINTATOR que deixo de legado.

Sorry, não é um aparelho de caçar pinto – isso se chama celular.

Com o DANDOPINTATOR, é possível combater o patriarcado e escrever hilariantes tratados de militância LGBT, que podem ser compartilhados em sua timeline, nos perfis dos aplicativos, em vídeos do YouTube, nos comentários desse texto e quem sabe até em grandes portais de opinião, cultura e política. Isso não é… É… Puxa, que palavra original poderia descrever isso? Não é… FABULOSO?!

É super fácil também. Basta pegar as frases e os parágrafos selecionados, tomando cuidado para não trocar os de introdução com os de conclusão, porque o meio não importa. Quando algo não fizer sentido, é só colocar o bordão da moda ou citar a Sailor Moon. Ajuda também se o título de seu post for meio chocante. Vamos começar?

Introdução:

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Poucas coisas são mais importantes do que o jeito certo de se abrir – oba! – um debate. É preciso chamar a atenção do leitor nas primeiras linhas, e o povo adora alguma acusação polêmica. Quer chamar a atenção? Questione a naturalidade dos “gostos pessoais”. Os gays ficam malucos quando alguém insinua que “não curtir” negros é racismo, por exemplo. Mas ó, nada contra héin? Questão de go… Opinião!

  • Será que não perdemos a mão no “carrinho de compras” da Internet?
  • Bichas, vocês são tão desunidas!
  • Que tal “abrir os horizontes” e conhecer alguma coisa nova? Não dá para ao menos questionar essa nossa “programação”?
  • Tá bom que vocês são todos branquinhos-limpinhos-riquinhos, néam? Essas bichas “poc poc” realmente não os representam, correto? Mas para levar lampadada enquanto vocês continuam no Tinder elas servem!

Desenvolvimento:

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Agora é a hora de escrever qualquer coisa porque o que importa é fazer sentido no final. Você pode contar uma história triste do seu passado, se mostrar revoltado com os rumos que a sociedade está tomando e até bater panela. Depois, jogue uma frase solta para causa impacto e retire tudo que disse antes.

  • Construções sociais são frágeis, baseadas em informações escrotas como “rosa é de menina e azul é de menino”. É por isso que esses códigos são tão fáceis de utilizar na hora de construirmos nossas “armaduras sociais” e, consequentemente, sermos vitimados por eles.
  • Basta uma olhada no boy e você já tenta sacar, pela roupa ou pelo cabelo, se ele é ativo ou passivo ou se curte as mesmas bandas que você.
  • Quando digo que os homossexuais vieram dar uma bagunçada nas coisas, não quero dizer que a gente não pertença aos nossos gêneros, mas que o comportamento desviante cria uma nova identidade agregada à primeira.

Conclusão:

boy sarado

Já falei que tudo deve ser ilustrado com homens seminus? É por isso que o conteúdo não importa. Aliás, esse texto aqui faria mais sucesso se a imagem acima fosse a primeira, de destaque.
Enfim, na conclusão você diz o que realmente quer dizer, aponta a incoerência ou a homofobia internalizada dos gays, joga algum trocadilho e uma frase de efeito.

  • Vamos pensar fora da caixinha! Edy, neca, xana… todo mundo tem! E o que serve para dar prazer para um, ao menos poderia dar prazer para todos. As infinitas variáveis nunca saberemos porque cada pessoa tem as suas taras.
  • É muito fácil achar tudo isso uma vergonha, lendo esse post via tablet no conforto de Ipanema ou Higienópolis. Quero ver fazer carão com o pé no queixo, recalcada!
  • Se você acha que alguém está certo de nos punir por causa da nossa orientação sexual, bee… Parabéns, você é machista!

No final, seu texto deve ficar mais ou menos assim:

Bichas, que vergonha! Como vocês podem ser tão escrotas com todo mundo?

Isso tudo são conceitos criados pela sociedade para nos oprimir e não faz sentido que uma pessoa LGBT os reproduza, não porque LGBT não sejam parte da sociedade, mas sim porque estamos à margem e temos a chance de observá-la melhor.

Desce do palco que você não é a Beyoncé!

Viram que máximo? Agora todos podem ser colunistas e conquistar o mundo bradando aos quatro ventos o quanto somos oprimidos e precisamos nos articular politicamente. Será impossível fugir desses temas porque todos os dias tem gente trabalhando duro para acabar com a gente, então enquanto tiver gente morrendo por ser diferente, será preciso repetir.

A não ser que apareça alguém para nos salvar, né? Fico pensando quem poderia ser…

moon tiara

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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