Acorda, viado, a festa acabou!


A festa acabou. A dignidade está na sarjeta, junto dos restos de confete, serpentina e aquela espuma nojenta que não derrete. As orgias ainda vão continuar por alguns dias, pelo menos até os turistas irem embora. As festas voltarão à rotina de pegação, colocação e música questionável, e nós voltaremos à vida dupla de “super-heróis”: cidadãos comuns durante o dia, divas do escapismo devasso depois da meia-noite. É fabuloso, mas está na hora de acordar.

DandoPintaSloganNada contra a viadagem, ao contrário. Seria ótimo ter mais gente orgulhosa, “fechativa”, lacrando tudo com a beleza de se viver o que é. Sexo é gozo, é prazer, é o princípio da vida. Precisa ser celebrado. E se por um acaso o sexo ou a sexualidade ganharam contornos de identidade política, que esta seja vivida em sua plenitude porque não devemos nada a ninguém. Infelizmente, o que acontece é que estamos sendo ameaçados.

“Sair do armário” tem um quê de euforia. Depois de anos de repressão, finalmente nos sentimos livres para usufruir da vida sem mentiras. Muito se fala na “adolescência eterna dos gays”, que libertos da opressão e estando à margem da sociedade, acabam se entregando ao hedonismo de uma vida irresponsável, sem as cobranças do mundo “normal”. É um ideal de estilo, de consumo, que começa na própria palavra “gay” e termina em cruzeiros com homens seminus pelo Caribe. É um carnaval, que desperta a fúria das invejosas dos heterossexuais.

Todo carnaval tem seu fim. O homem “normal” tem 4 dias para se vestir de mulher e chupar os amigos na encolha, pois é tudo culpa da cachaça. Já os gays, esses degenerados, fazem isso o ano todo. É, “eles” nunca vão aceitar “a gente”…

Deve ser muito triste ser hétero e dançar feito um robô ao invés de imitar a Beyoncé, mas é muito mais triste ser gay e levar uma lampadada no meio da rua. Mais triste ainda é ser trans e perder o pulmão com uma facada saída das sombras ou sentir a punhalada da rejeição a cada entrevista de emprego infrutífera. Ser lésbica e sofrer estupro corretivo ou aturar a misoginia dos gays também não é nenhuma brincadeira, então a vida dos LGBT – sim, aceitem, existe gente bi – está longe  da folia.

Precisamos nos unir e partir para a luta.

Não dá para brincar carnaval enquanto um carro alegórico com várias formas de amor virar notícia bombástica que causa polêmica. Não dá para rir quando um ator é “flagrado” beijando um homem e isso ganha as manchetes como se fosse coisa de outro mundo, e o comentário geral – inclusive entre os gays – se resume a “tá vendo como ele era namorado daquele outro que dizia ser casado com a mãe dele?”. Simplesmente não dá.

A sexualidade não é uma coisa fechada, que não admite práticas e desejos fora de seus conceitos definidores. Essa é uma obsessão social. Os desejos humanos são – graças à Cher – muito mais diversos, com mais de 50 tons de todas as cores. E daí que X beijou Y? Isso realmente prova que Y não era casado com Z? E o que alguém tem a ver com isso? Por que precisa parar no jornal? É sério que a festa da Globeleza se choca com meia dúzia de pessoas trocando beijos embaixo de um lençol carnavalesco? O “paraíso tropical” é mesmo tão careta?

Acorda, viado! Temos um louco fundamentalista na presidência da Câmara, escondendo porcamente os próprios escândalos atrás de uma perseguição sanguinolenta do rabo alheio. Ele quer destruir famílias, controlar corpos e caçar direitos, além de impedir o avanço de qualquer pauta progressista, em nome da “moral e dos bons costumes”. É claro, ninguém acha nada demais, já que sua motivação religiosa serve de justificativa para qualquer absurdo em nosso “Estado Laico de Mentirinha”.

A festa acabou, e com ela, a nossa permissão para dar pinta. Agora que o ano começa de verdade, somos forçados a voltar para nossos bueiros. Se não dermos um basta, ninguém dará. Seria ótimo pular o after ou aquela Pool Party incrível, e sair às ruas sem misoginia, lesbofobia ou transfobia. Unidos, todos os LGBT, como as cores da nossa bandeira.

Isolados, somos azuis, somos roxos, somos vermelhos… Porém juntos somos um arco-íris. Somos a beleza que o sol encontra nas gotículas de chuva. Nosso vermelho não pode mais ser pintado com sangue, mas é preciso lutar para mudar isso. Todo carnaval tem seu fim. Está na hora de quebrar a máscara de lantejoulas e colocar aquela do “V de Viadão Vingança”, de preferência com vinagre em uma mão e uma pedra na outra.

Se não pararmos com a festa agora, nós é que vamos dançar. E todo dia será “de cinzas”.

Permita-se. Seja livre. Seja Fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página. Você pode comprar ingressos para a festa FABULOSA clicando aqui.

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