Beijo forçado NÃO pode, moço


Há quem pense que beijo forçado só acontece em micaretas ou no carnaval baiano. Mas a verdade é que na grande maioria das festas com homens e mulheres, a prática é recorrente.

Nunca frequentei micaretas. Não é meu estilo. Mas já presenciei e sofri com esse costume de beijarem mulheres a força nas festas e boates que frequentei. Lembro bem de ter que desviar dos corredores onde os caras se colocavam para agarrar quem passasse por ali. Era um tal de passar mão, apertar aqui, apertar ali. E beijar a força. Tipo, vários seguravam uma menina para que outro a beijasse. Isso quando a menina não era beijada por cada um deles.

Ai de quem ousasse revidar com palavras ou agressões físicas! Se lutasse contra, a coisa podia piorar, pois além de ser forçada a beijar, era possível que apanhasse. Ou seja, melhor se conformar com a invasão de seu espaço pessoal, ou haveriam consequências.

Obviamente há quem vá argumentar que se essas meninas/mulheres não estivessem na boate, ou se passassem fora do corredor, ou se não estivessem com roupa assim ou assado, isso não aconteceria. Há também quem diga que tem mulher que gosta. Ok, eu não vou negar que via muitas mulheres passando nos corredores de propósito, na expectativa de serem agarradas e beijadas. E na verdade, isso me deixava ainda mais perplexa. Principalmente quando elas passavam e não eram agarradas por ninguém e saiam decepcionadas. D-E-C-E-P-C-I-O-N-A-D-A-S por não terem sido beijadas a força por vários caras nos quais elas sequer estavam interessadas.

Hoje em dia, entendo que a mesma cultura que banaliza o beijo forçado, transformando em apenas uma “brincadeira” entre os jovens, também reforça que se você é beijada por vários, você é desejada. Logo, você deve se sentir bem porque meia dúzia de bêbados agarraram você na boate.

Já repararam que nas festas com “clube das mulheres”, mulheres entram antes e, geralmente, há bebida liberada (álcool reduz nossa capacidade cognitiva e também desinibe)? Depois que as mulheres estão excitadas com a visão daqueles homens sarados dançando sensualmente, e muitas vezes bêbadas, é que os homens entram. Já pararam para pensar no porquê disso? Simples. Fica mais fácil de pegá-las. Sugiro que se questionem porque open bar sempre é mais barato para mulheres. Ou a maioria das festas. Se você está com preguiça de pensar, eu explico: quanto mais mulher, melhor. Mais chances de pegar alguém. Mesmo que a força.

Que tipo de pessoas estamos criando ao banalizarmos uma agressão e uma invasão do espaço pessoal alheio?

Todos nós temos o nosso espaço pessoal, dividido em níveis. Esses níveis delimitam até onde as pessoas podem ir conosco. Quanto maior o grau de intimidade, mais próximo de nós as pessoas podem chegar. Por isso muitas vezes nos incomodamos com pessoas estranhas tentando um contato físico mais íntimo, como um abraço, sendo que não demos tanta intimidade para isso. E até onde uma pessoa pode avançar dentro do nosso espaço pessoal deveria ser uma escolha nossa. Eu deveria ter o poder do não. Ou do sim. Eu e apenas eu, afinal, é do MEU espaço que estamos falando. Um beijo é algo íntimo. Talvez alguém vá dizer que é  mimimi, afinal é normal beijarmos pessoas que nem conhecemos direito na balada.

Ok, beijamos pessoas que não conhecemos tão bem. O “ficar” é exatamente isso. Mas no ficar, a pessoa escolhe colocar aquela pessoa num nível mais profundo de intimidade, mesmo que por um breve momento. Mas há uma escolha. E há uma consenso entre os dois.

ESCOLHA E CONSENSO

No beijo forçado, não há escolha. Pelo menos um dos lados não recebe a possibilidade de escolher e negar. O que acaba com o consenso, afinal, é uma decisão UNILATERAL. Eu resolvo te agarrar e você não tem outra escolha a não ser aceitar.

Usar a força física, intimidar por estar em maior número, usar álcool como facilitador fazem de você um abusador. E não adianta dizer que foi só um beijo. Foi algo que a outra pessoa não teve direito de escolha. Então, é abuso sim! É invasão do espaço pessoal. É desrespeito.

Então respondendo a enquete da semana: beijo forçado deveria ser proibido (por lei). E devíamos ensinar aos meninos a não fazerem esse tipo de coisa e as meninas, por sua vez, a não tolerarem, em vez de transformar essa cultura em uma prática comum e aceitável da juventude.

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