Militância é Utopia?


Você consegue imaginar o dia em que alcançaremos um mundo livre de guerras, mortes desnecessárias, desigualdades, preconceitos, pobreza, exploração, doenças e outras mazelas? Consegue encontrar soluções para que um dia não haja necessidade para prisões, orfanatos, exércitos, advogados ou lexotans? Mesmo que resumidamente, você consegue descrever como seria o mundo ideal pra você?

Diversas religiões oferecem versões de um paraíso após a morte a seus fiéis. No entanto, falo de um estágio da humanidade alcançável na Terra. Complicado, né? Já reparou como são vagas as descrições religiosas de um plano existencial onde a satisfação de tod@s é plena? Visões do apocalipse, por outro lado, conseguem ser muito extensas e detalhadas. Não só em textos dogmáticos como também na literatura mundana, no cinema, nos telejornais – com suas previsões paranormais e notícias, seriados etc. É bem mais fácil listar produções catastróficas, num futuro onde as civilizações ruíram, do que lembrarmos de descrições do que seria o planeta Terra ideal.

Provavelmente, essa facilidade que temos de implodir simbolicamente o mundo acontece porque conceber um mundo sem conflitos é extremamente cansativo. Além de inverossímil e entediante. Nem contos de fada se passam num cenário idílico. Na verdade, toda ficção é a narrativa de um conflito – externo ou imaginado – e sua resolução. Não existiriam semideuses heroicos se não houvessem momentos de desespero, assim como não haveria necessidade de abrigo caso fôssemos resistentes à chuva. Afinal, sobreviver é superar. Resistir, exigir, lutar…

Basta conferir os últimos bestsellers e grandes bilheterias do cinema para identificar que compartilhamos uma rentável e duradoura obsessão com a destruição de tudo que conhecemos. A própria noção de fantasia é uma forma de reconstruir e fugir da realidade presente. Talvez porque no fundo a nossa vontade de sobreviver nele não seja tão instintiva assim.

Mentira, recalque, ambição e imaginação são próprios da humanidade. Por isso, projeções de um mundo perfeito sem essas características além de desinteressante nos parece tão irreal e utópico – não pertencente a qualquer lugar onde habite a humanidade.

Dito isso, pergunto: se um mundo justo para tod@s é impossível por que militar/protestar/discutir /conscientizar/… ?

Pode ser pessimismo, mas realmente não consigo imaginar uma sociedade totalmente livre de desigualdades, preconceito e opressão. Sermos seres racionais inclui dizer que sempre seremos ignorantes. Afinal, ninguém sabe tudo. Não tem como uma única pessoa, por mais empática/iluminada que ela seja, conseguir absorver toda a multiplicidade humana e respeitar identidades e vivências das quais nunca se ouviu falar. Logo, é impossível esperar a desconstrução de preconceitos de maneira uniforme entre indivíduos de uma sociedade inteira. E viva a diversidade!

No entanto, a insatisfação e a busca por condições melhores de vida também são características tipicamente humanas. Então, embora seja improvável que todos os seres humanos um dia abrirão mão de preconceitos e privilégios, suportar abusos e injustiças em silêncio é tão improvável e desumano quanto um mundo dos sonhos.

Felizmente hoje vivemos em uma época em que qualquer singularidade individual encontra uma rede de apoio na internet. Consequentemente, ninguém que é percebid@ como aberração em algum recanto do planeta está fadad@ a solidão como há algumas décadas atrás. Todos podemos descobrir que existe alguém passando pelas mesmas dificuldades que as nossas, apesar das pessoas a nossa volta nem sempre se interessarem no que nos causa incômodo.

Por mais que os comentários em publicações digitais possam ser desanimadores, cada vez mais minorias ignoradas pela mídia, pelos políticos e pela sociedade encontram refúgio em núcleos de militância. Grupos capazes de oferecer apoio, solidariedade a quem é marginalizad@, assim como rachar quem discrimina e agride.

Então, embora conscientizar o mundo pareça uma tarefa inatingível, nos últimos três anos descobri que a maior conquista de quem trava uma batalha diária contra o senso comum e o preconceito é encontrar pessoas com quem compartilhar desabafos e conselhos. Ainda que estejamos a milênios de vislumbrar uma sociedade despida de qualquer tipo de intolerância, todo mundo que se sente rejeitad@ por alguma peculiaridade pode encontrar um abrigo ideológico para se emancipar dos valores que ameaçam o nosso senso de dignidade. Podemos não ser respeitados por todos, mas podemos aprender a nos respeitar e a nos fazer ouvir.

Talvez, de fato, nunca superaremos as violências físicas e simbólicas que marcam a vida de tanta gente, mas reunidos aos nossos semelhantes, cada grupo de militantes acaba criando uma ilha utópica, onde o que nos oprime e magoa fica do lado de fora. Como deveria ser…

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