Meu problema com gênero


De uma maneira ou outra eu nunca fui quem eu deveria ser. Mais precisamente, nunca fui o garoto que esperavam que eu fosse. Raramente compartilhei dos mesmos interesses dos meninos da minha idade. Fórmula 1, futebol, soltar pipa, lutinhas, carrinhos, filmes de ação, concurso de arroto, ZzzZzZZzzzZZzzzz. Se não fossem pelos video games, filmes de ficção científica e conflitos de convivência, provavelmente teria passado a minha infância somente na companhia de livros e gibis. Posso não ter sido um guri exemplar, mas assim como nunca fui fã de meninos competindo pelo título de macho alfa, também nunca tive paciência para meninas prestando concurso para mini dondocas.

Sempre gostei de me comunicar, conversar e debater coisas que achava mais interessantes que o campeonato brasileiro ou quem seria a mais bonita ou a mais feia. A solução que encontrei foi transitar entre esses dois mundos sabendo muito bem que nenhum deles era propriamente o meu. Então, quando a atividade ou o assunto do grupo me desinteressavam, escolhia um canto e ficava só observando ou entretendo meus botões. Fingir interesse pra me encaixar não foi algo que consegui sustentar por muito tempo. Trabalho demais e recompensa de menos. Diferente de alguns e outras, demorei pra perceber que haviam expectativas às quais eu deveria me encaixar

Quando tinha uns 8-10 anos conheci uma menina que me fez pensar em milhares de coisas. Sempre detestei ter que jogar futebol pra ter com o que e quem brincar, mas quando ela jogava com os meninos na hora do recreio… Eu ficava maravilhado! Acho que os meninos só a aceitavam porque ela mandava bem melhor que a maioria deles. Talvez exatamente pela postura tão inusitada e segura de si que ela transmitia, até hoje não sei dizer se o que ela despertou em mim foi admiração ou paixão.

Porém, somente alguns anos depois, com a chegada na escola de um menino afetado que eu percebi que era preferível ser uma menina com jeito de menino do que o contrário. Uma suspeita que confirmei quando disse aos meus pais que eu queria fazer aulas de dança e não de judô. Nessa época que identifiquei quais expectativas tinham o poder sobre a minha vida.

Depois, na adolescência e até uns dois anos atrás, mesmo cercado de amig@s gays, sempre fui considerado a menina do grupo. Minha libido nunca foi macha suficiente. Os mecanismos que regem a minha atração por alguém nunca foram primitivos suficiente. Não que eu seja uma pessoa romântica, longe disso! Conheço reis e rainhas da pegação que procuram em cada nova conquista o par ideal enquanto eu já chutei esse balde há muito tempo! Simplesmente não reajo com desejo procriador à estímulos visuais.

Enfim, por mais que eu me identifique com o gênero atribuído ao meu sexo, outras pessoas sempre fizeram questão de me apontar que eu poderia seguir a cartilha da virilidade mais fielmente. No entanto, acho que, na realidade, ninguém consegue seguir integralmente o roteiro para os papéis designados ao sexo masculino ou feminino. A sociedade trata essas funções como uma herança da mãe natureza seguida desde @ primeir@ homo sapiens, mas é notável como esses valores mudam. Nem todo homem provê alimento através da caça, assim como a vaidade já foi aceita tanto em reis quanto rainhas e agora só é possível a homens metrossexuais. Assim como tem muita mulher que mata barata com a mão, que conserta a pia, troca o chuveiro e instala gás em fogão.

Mesmo os meus amigos de infância, adolescência e vida adulta, por mais que tentassem representar em público o papel que a sociedade espera del@s, na hora do desabafo ou do sufoco sempre revelam falhas na construção de suas personagens. Atualmente, conforme a intolerância a pessoas trans se faz cada fez mais manifesta, acho difícil pensar em alguém 100% cisgênero – completamente conformad@ com os papéis que recebemos. Afinal, esses papéis são arbitrários e antigos demais. Acho que seria mais fácil abolirmos a rigidez desse tratado invisível que dita as normas de gênero ou nos aceitarmos como indivíduos 5% trans(gressores). Porque se  humanas nascidas com vagina fossem todas frágeis tod@s seríamos filh@s únic@s, e se humanos nascidos com pênis não choram, só os natimortos conseguiram esse feito.

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