Quem “não curte” negro, afeminado e gordo é preconceituoso SIM!


É tudo uma “questão de gosto”. Da mesma forma, qualquer absurdo ganha ares de lei inquestionável quando é uma “opinião pessoal”. Não importa quem esteja falando ou quais sejam suas intenções, seu ambiente cultural, seus campos de estudo ou outros fatores a formar ou a influenciar suas posições. Na internet – terra da “liberdade de expressão” – todos os achismos e todos os “gostos” são sagrados.

É fácil de entender. Somos educados a nos sentir especiais e quando uma pessoa não demonstra os níveis ideais de presunção autoestima, é o caso até de chamar um médico. Para completar, a sociedade de consumo molda nossos desejos – especialmente por coisas de que não precisamos – e exige que os supervalorizemos. Não lutar para conquistar algo é praticamente um crime. Dessa forma, “fazemos birra” quando nossas vontades são questionadas.

Sim, qualquer frustração é dolorosa. Entretanto, algumas são necessárias.

É comum que se acredite que as pessoas LGBT são livres de preconceitos. É evidentemente uma ilusão, já que qualquer imersão nessa comunidade revela que o respeito às diferenças é um dos nossos pontos fracos. Normal. Uma orientação sexual não faz que um indivíduo seja imune a seu ambiente. A ideia de unidade da comunidade LGBT serve para a política, mas não se sustenta quando analisamos as interações entre pessoas.

Bem, tudo isso foi para dizer que quem não curte “negro, afeminado e gordo” é preconceituoso sim. Eu sei, muita gente vai me xingar nos comentários, vai parar de acompanhar a página, vai dizer que o preconceituoso sou eu ou vai caçar todas as pessoas com quem já fiquei – o que deve levar séculos – para ver se aplico em minha vida o que estou questionando ou se esse texto é apenas uma teoria politicamente correta da boca para a fora.

“Meu gosto pessoal, ninguém sai!” ou “Ingenuidade canalha”? É óbvio que tenho meus conceitos, preconceitos, desejos, fantasias, repulsas e afins. Seria ingênuo ou muito cretino acreditar que mesmo todo estudo e toda desconstrução do planeta um dia me livrarão completamente deles. Aliás, além de impossível, isso talvez nem seja desejável. Sou humano e tive minha personalidade formada por minha vivência e por minha cultura, no recorte de tempo que já gastei na Terra, o que não me impede de ter senso crítico.

Algumas crianças não gostam de comer verduras e são forçadas pelos pais. Como uma alimentação saudável é importante, a orientação básica é “ignore seu desejo e coma o que é melhor”. Não é por acaso que as delícias de gordura e açúcar do “lanche feliz” parecem mais gostosas. É por um estímulo consciente, que interfere de maneira objetiva na formação do nosso paladar. E quando o assunto é desejo sexual, acontece a mesma coisa.

Não dá para defender a ideia de que somos NATURALMENTE atraídos por homens “brancos, altos, sarados, pintudos e com jeito de macho”. Não é muita coincidência que esse seja exatamente o padrão vendido como ideal? Será que é “normal” e “natural” que, por acaso, alguém faça exatamente o que a construção social estimula como correto? Não, né?

É claro que essa reflexão se aplica a todos, mas falo especificamente dos gays. No caso, quando pensamos nessa identidade “dissidente”, é preciso levar em conta a rejeição que o conceito carrega. Quem é oprimido quer deixar de ser, e muitas vezes isso passa pelo desejo de oprimir também. É por isso que nos dividimos e hierarquizamos, disputando quem é “o pior do pior” com nossa transfobia, nossa misoginia e nosso elitismo, além do racismo.

Você pode não se sentir preconceituoso e pode não fazer nada para oprimir os outros. Todo mundo agradece. Entretanto, cada “não curto X ou Y” escrito em letras garrafais na internet reforça a ideia de que essas pessoas são indesejáveis, e de que o “mercado” só está interessado em quem for diferente delas. É preciso refletir sobre e, se não for possível mudar de hábito, pelo menos pensar em maneiras educadas de recusar uma cantada sem reduzir alguém à sua noção de “defeito”.

Preconceito todo mundo tem. Só não dá para chamar de “gosto”.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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