O texto raso de “Águas turvas”


Águas turvas, é um romance brasileiro, escrito por Helder Caldeira, autor do livro “A 1ª presidenta”, que foi publicado pela editora Faces, em 2011. “Águas” está publicado pela editora Quatro Cantos e saiu ano passado.

Antes de começar a falar do livro em si, quero (e preciso) transcrever a sinopse que vai na quarta capa do livro:

O jovem médico brasileiro Gabriel Campos decide fazer especialização em Worcester, Massachusetts, depois da morte dos pais. Justin Thompson, herdeiro de uma abastada família republicana de Holden, no mesmo estado, dirige uma rede de revendedoras de automóveis em plena crise econômica de 2009.
A trajetória desses dois homens é permeada por um turbilhão ininterrupto de acontecimentos, que prendem irreversivelmente o leitor até o último parágrafo e constroem uma emocionante história de amor.

Se eu tivesse que falar desse livro, bem, não seria muito por esse viés. Não que as coisas acima ditas não estejam de acordo com o que vamos nos deparar, no momento da leitura, mas é que não é apenas isso. O recorte feito é muito grande, a meu ver: a obra é mais um romance sobre uma família e dos segredos que se mantêm e se alimentam, em silêncio, com sentimentos vários.

É nessa família que Gabriel Campos, o médico da sinopse, passa a se ver fazendo parte entre tantas indas e vindas. Costura-se entre ele, Justin, a família Thompson e os problemas econômicos de 2009 os desenlaces, a destruição e o ressurgimento de uma família, mais verdadeira consigo e com os outros membros dela.

A história começa com a narração de Matthew, um dos membros mais novos dessa família, que, incentivado pelo pai, passa a se dedicar a contar histórias, a escrever. Decide-se pelas coisas reais da vida, o que está ao seu redor, depois de seu pai ter lido o que ele vinha produzindo em um caderno.

As intromissões de Matthew se dá sempre em partes separadas: essa primeira vem como prólogo e as outras duas, intermezzo e epílogo, respectivamente; e adquirem um tom estranho, pois é muito formal para um menino de quinze anos. A sensação é que esse narrador é um falsete.

Nos outros capítulos, quem assume a voz é um narrador onisciente, que começa a sua narrativa na infância de Gabriel, no sítio dos pais.

Uma vida um tanto solitária, que não se altera muito, mesmo depois que ele se muda para Petrópolis, para estudar medicina (depois de ter convencido os pais a deixarem-no cursar medicina).

Durante o breve relato sobre esses anos, nenhuma menção a amigos ou algo mais profundo de sua vida, que não as noites em que ele fica olhando um de seus colegas de república dormindo, muitas vezes de pau duro, e que indicam um desejo que lhe arde as entranhas, mas a qual não sentimos queimar.

Do mesmo jeito que não sentimos doer o momento em que ele é estuprado por outro colega seu de quarto, quando todos estão de partida, depois de já estarem formados. Há aqui outra incongruência, outro falsete. Primeiro, Gabriel tem que convencer seus pais a cursar medicina. Que pais não gostariam de ver seu filho “doutor”, ainda mais vindos de uma realidade campesina? Como, estando no Rio de Janeiro, cursando medicina, Gabriel não trava nenhum conhecimento com outros gays? Não vai pra festas e só alimenta o desejo platônico por um de seus colegas de quarto.

A cena do estupro é fria, não choca. Digo isso lembrando da passagem de estupro do livro Menino de ouro, que foi um soco no meu estômago, mas que em Águas turvas, foi como se tivessem me pedido pra passar o pote açúcar, na mesa, durante o café da manhã. Não há tensão alguma.

Tensão. Emoção. São esses os elementos que faltam em todo o romance. Não há, nem quando os pais de Gabriel morrem e ele se decide por tentar uma especialização nos EUA, nem no momento em que ele tropeça, ou melhor dizendo, que Justin cai em cima dele, no aeroporto, e menos ainda nos acidentes e revelações que vão acontecendo durante todo o texto. É como se estivéssemos vendo peixinhos dentro de um aquário, indo para lá e para cá.

Não bastasse isso, há ainda muitos momentos reflexivos, filosofia clichê sobre relacionamentos e a vida, como discursos ou mesmo monólogos, que não se encaixam muito bem na narrativa, fora uma repetição, que achei um tanto desnecessária, da metáfora “águas turvas”.

Para não ficarmos somente em coisas que não funcionam, há que dizer que, o fato de Águas turvas não transformar em foco o relacionamento entre Justin e Gabriel, mas fazê-los parte de um todo, que é a família Thompson, dá uma dinâmica maior, embora não muito bem aproveitada. E, claro, dois momentos bem interessantes, o primeiro que destaco é o flerte entre Nicole, irmão mais nova de Justin, e Christian, professor de História do Colégio dela, dentro de uma biblioteca.

O outro ponto positivo é Florence, uma garçonete cheia de presença de espírito, que infelizmente só apareceu duas vezes no texto.

No fim, há mais que águas turvas no livro de Caldeira, há um escrita turva. Turva e fria.

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