Querida Vlogueira Branca


Se tem uma coisa que eu vou morrer sem entender é o fascínio de pessoas brancas com a cultura negra. Principalmente com a cultura negra urbana como o rap, o hip hop, o linguajar dos guetos, a contracultura marginal e o estilo gangsta. O que há de tão magnético pra essas pessoas numa cultura criada pela rejeição e resistência aos padrões eurocêntricos? Ou será que a admiração é tão cega que sequer percebem que não foram convidados pra festa?

Sinto dizer, mas na verdade todas essas expressões culturais produzidas por negros nasceram justamente no contexto das exclusões social, espacial, legal e econômica às quais ainda estamos submetidos. Tanto nos EUA, quanto no Brasil e na África. Em outras palavras, o racismo do homem branco é parte da centelha anárquica que levou excluíd@s a criarem algo para chamarem de seu, já que até as nossas vidas ainda dependem da generosidade de policiais, juízes e políticos brancos.

Por isso até entendo quando negros da quebrada ou do Leblon se espelham no 50 Cent, no Jay-Z ou em qualquer outro modelo de sucesso nesse mundo. Afinal, a realidade preta continua sendo “morrer tentando” encontrar um espaço respeitável na nossa sociedade de consumo. Também reconheço o apelo que a Beyoncé e a Rihanna tem para meninas negras cansadas de verem somente mulheres loiras brancas como referencial de beleza. Agora o que eu não consigo entender é a vontade de jovens branc@s de imitarem aqueles no nível mais baixo da hierarquia racial. Um sistema que esses jovens não parecem dispostos a contestar ou desconstruir exatamente pelas benesses que desfrutam nele.

Já achei que fosse por admiração e conscientização política, mas também já cansei de ver esses vorazes admiradores relacionando-se exclusivamente com outras pessoas brancas, isso pra não mencionar o medo deu roubá-las em shows da Lauryn Hill ou ensaios da Mangueira. Se pra essa gente a cor da música não importa, por que a cor das que produzem parece causar alergia e pavor? Sério, as vezes acho que a maioria daa pessoas brancas andam com diamantes gigantescos n@ bols@. Tamanho é o terror que a minha proximidade provoca. Sei que vocês tentam disfarçar, mas acho que esse tipo de discrição nunca chegou a entrar nos manuais de etiqueta.

Semana passada uma vlogueira (foto), da qual nunca ouvira falar até então, postou uma foto sua caracterizada de mulher negra. Blackface completo: tinta escura na pele, lábios embeiçados por maquiagem, peitos e bunda preenchidas, coroa crespa postiça na cabeça, enfim, ela fez o caminho contrário ao Michael Jackson. Só que não!

Impressiona que dois séculos depois de surgida esse tipo de caricatura, ainda haja gente que não a perceba como o escárnio estereotipado e racista que essa prática se fundamenta. Choca quando alguém tenta defender dizendo que “é só uma homenagem”. Quer homenagear pret@s?! Vamos combinar assim: peça-nos para ser pres@ num tronco, para ser enviad@ pra outro continente sem nada no bolso e correntes nas mãos. Se história não é seu forte: não aceite emprego em empresas sem negr@s exercendo alguma função de liderança; só frequente lugares onde 50% da lotação seja negra; abra um livro sobre racismo até aprender que ele não acabou com a abolição e vai muito além de chamar alguém de macaco ou indicar o elevador de serviço.

Pra ser sincero, acho que falo por todos @s negr@s quando digo que não precisamos de suas homenagens. Acho que qualquer um de nós ficaria bastante satisfeit@ se nos mostrassem respeito invés de medo ou indiferença. Até porque, fica difícil se sentir homenagead@ quando há clara desconsideração pelo setor homenageado quando este se diz se sentir ofendid@. Mas se for pra teimar e mostrar veneração ao tom de nossa pele mesmo assim, o mínimo que se pode fazer é fingir que se importa com a opinião de quem se pretende representar. O ideal seria entender que a cor de pele de um grupo não é um adereço teatral, mas isso parece ser pedir demais…

Por fim, desejo a vlogueira todo o reconhecimento e consideração que ela demonstrou aos críticos de sua infeliz foto ao publicar, ontem, um vídeo mostrando sua versatilidade como artista (cof!) ao fazer a Globeleza!

Leia a coluna Enegrecendo toda segunda, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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