Alguém do seu rebanho!


Como é fácil dizer o que estranh@s podem ou devem deixar de fazer. Dizê-l@s onde ir, quando serão bemvind@s e  vestindo sabe-se lá o quê. Difícil é moralizar o vizinho, ou, se longe do ninho, peitar o patrãozinho e mandar “se f*der” quando este fizer ou não por merecer!

Quão descomplicado é tratar com indiferença a humanidade alheia. Como é simples ditar regras a quem desconhece o conforto de uma dispensa cheia ou de ter empregada para passar cada par de meia. Como é tranquilo julgar publicamente vidas doutra aldeia, por poder alugar a chave de qualquer cadeia. Complicado é entender que nem todos os títulos e coberturas desse mundo concedem o direito de ignorar que o buraco, principalmente de pobre, é sempre mais profundo; que as vezes é necessário colocar a própria opinião num plano segundo.

Se quando apontamos algo voltamos quatro dedos à nós, quando escrevemos tornamos visível a nossa voz. Nem sempre ricas em fundamento ou conteúdo, mas palpável ainda assim, mesmo que os argumentos revelem um involuntário tom pasquim. Afiados pelo incômodo mesquinho e atroz de um senhor absurdo, vindouro e veloz. O pesar de uma época diferenciada que anuncia seu fim e lamentado nas páginas do mais global folhetim.

Quanta bravura e coragem requer um homem qualquer, pra sarrar ou assoviar para uma desconhecida mulher? De quanta macheza ele precisaria ter para uma bichinha numa roda de amigos ofender?  Qual a graça de a Deus agradecer, pelos imerecidos privilégios que não se quer reconhecer? Quão respeitável ele é se precisa humilhar outrém só pra se entreter, contando que esse alguém não tem como se defender, e se a pressão estourar, alegar que não era pra valer? E se o chiar demorar, de mimimi acusar e chamar de estraga-prazer. Quão viril necessariamente ele precisaria  ser, para um Golias peitar afim de se fazer entender?

Há muito não se falava tanto em liberdade de expressão. Um direito das ruas nobres, das telas, mas, por favor, das pintas negras da favela não! O que se defende é o direito do bufão, de caçoar, de caluniar, de rebaixar quem contesta os limites da representação. Uma legalidade universal que prevalece a exceção, que sempre cede pro lado de quem ostenta judicial representação. O que se espera é o silêncio de quem não tem condição moral, sexual, salarial ou apresenta canhota inclinação. Porém, se houve uma época em que @ ofendid@ ficava calad@, hoje na internet se encontra uma pronta e solidária legião, disposta a fazer jus à qualquer manifestação, contra qualquer tipo de enraizada ou bem humorada opressão.

Então, por favor não confunda, a dignidade de grupo com latrina, pois os dias de impune tirania estão à cliques de acabar. Não importa se em casa, no mercado, no teatro ou num bar. Se falta a alguém empatia haverá sempre uma minoria disposta a ensinar, o que a história e a mídia não lucram ao publicar. Nem tod@ autor@ de fato aprende, mas o intuito é conscientizar. Sempre. Não importa se um leitor, um espectador ou um desavisado adjacente.

Portanto, se for pra satirizar alguém se livre de pensamento tacanho, ouse e mire em alguém do seu ou de maior tamanho. Caçoar de quem já está por baixo jamais representa nenhum nobre ganho. Porque rir é bom, mas o humor é louvável quando se ri do próprio ou mais poderoso rebanho, quando há intimidade que nunca se tem com um saco de pancada qualquer: o desprezível e estranho.

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