Se todos tiverem HIV, ninguém terá AIDS


Antes de começar esse post, deixo claro que não estou defendendo a transmissão proposital de qualquer doença para ninguém. Eu sinto necessidade de esclarecer isso porque o medo do HIV é tão grande que as pessoas não parecem capazes de analisar a questão de maneira objetiva, sem fazer terrorismo.

Nessa semana circulou a denúncia de que um tal “Clube do carimbo” estaria divulgando maneiras de infectar pessoas com o HIV. O “carimbo” em questão seria o vírus e é interessante que tenham escolhido essa palavra porque reflete exatamente como nós, soropositivos, nos sentimos: marcados.

Não quero falar muito sobre a postagem para não divulgar, mas há um julgamento ridículo de que todo praticante do barebacking (sexo sem camisinha) deseja secretamente contrair a doença. Considero essa postura moralista e extremamente cruel porque usa de uma lógica de “justiçamento” que diminui tudo a “quem procura, acha”.

Uma pessoa adulta e bem informada sobre DST, que opta por fazer sexo desprotegido, precisa ter consciência dos riscos que está correndo. Existem pessoas com tendências autodestrutivas por diversos fatores, como depressão, para citar um exemplo, mas há valores que podem justificar essa opção para alguém sem que seja necessariamente um problema. Isso não dá direito aos outros de julgá-la e dizer que ela merece se infectar, como se uma conduta sexual estigmatizada precisasse de punição.

Merece punição quem infecta alguém de propósito e isso não está em discussão. Inclusive, é crime punido por lei. O que eu considero ruim na forma como o debate sobre esse caso vem sendo conduzido é que ninguém parece preocupado em questionar o motivo que levaria alguém a cometer esse crime. Ninguém parece se preocupar ou se responsabilizar pela maneira criminosa como tratamos as pessoas com HIV.

Deixa eu repetir: NÃO estou defendendo a atitude criminosa. O que estou dizendo é que, como soropositivo, entendo que “se todo mundo tiver HIV, eu deixo de ter AIDS”. Essa é questão do preconceito. A pessoa positiva está sujeita a toda sorte de julgamento e exclusão, e por isso as pessoas “normais” tem tanto terror de correr o risco da infecção. Quando debatemos essa questão, não importa que o sexo com um positivo em tratamento seja menos perigoso do que com alguém que não conhece sua sorologia. Não importa que a “sentença de morte” dos anos 80 seja hoje uma doença crônica e que a qualidade de vida dos pacientes seja boa. Não importa, também, que toda pessoa seja responsável por sua própria saúde. A única coisa discutida é a culpa do monstro que infectou alguém, de propósito ou não.

Se todos tivessem o vírus não existiria mais o estigma relacionado a ele, porque todo mundo estaria “no mesmo barco”. É essa visão que faz alguém pensar em “carimbar” uma pessoa para incluí-la no “clube”. É uma ideia aterrorizante, mas que não existiria se os positivos não fossem tratados como marginais em primeiro lugar. Debater esses crimes sem levar em conta essa questão é, na minha opinião, ou ingenuidade ou maldade.

A Lado Positivo é publicada quinzenalmente em Os Entendidos e você pode me escrever com comentários, críticas, desabafos e questões sobre a vida com o HIV através do poz@osentendidos.com.

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