O horror do pinto pequeno…


Na coluna passada, falei sobre a dádiva duvidosa que alguns centímetros a mais de pênis podem representar. O texto deu o que falar porque sempre que o assunto é sexo e questionamento de algum desejo, há discussões em forma de comentários, o que é ótimo. Então hoje resolvi falar do outro lado dessa questão…

“Don’t want no short dick man”, cantava a Gillette em 1994, para o mundo todo ouvir. A canção era uma resposta à objetificação da mulher no Pop e particularmente no Rap e no Hip Hop, mas repetia incessantemente uma coisa que todo homem cis cresce ouvindo: não quero um cara de pau pequeno.

Enquanto os bem-dotados transformaram-se em fetiche e têm a cabeça de baixo mais valorizada do que a cima, os pequenos são forçados a destacar outras habilidades – tanto sexuais quanto pessoais – para “compensar” a “má sorte”. Ora, crescemos sob o jugo do patriarcado, que só dá valor ao que é considerado masculino e viril, incluindo o tamanho do pênis. Os meninos são estimulados a competir entre si por status social e pela capacidade de “conquistar” as mulheres – como se elas estivessem disponíveis para a caça. E nesse sistema, o que balança no meio de nossas pernas vira um valor.

Pesquisas indicam que, em média, o pênis do brasileiro tem 14 cm. Entretanto, a imagem de amante latino e a produção pornográfica dentro e fora de um país tão sexualizado – ainda que moralista – como nosso endeusa paus grandes. Os enormes e avantajados então, nem se fala. O “macho brasileiro” precisa ter pegada, e ela parece impossível sem a presunção confiança que um instrumento poderoso é capaz de dar.

A masculinidade é uma construção muito frágil, já que revela suas rachaduras à menor ameaça. Somos cobrados pela sociedade a ter paus grandes, e por isso passamos a adolescência de régua e fita métrica nas mãos. Porém, é preciso ser discreto no mictório porque o menino que for pego examinando a rola dos amigos será tachados de – horror dos horrores – viado. Curiosamente, nos chuveiros coletivos dos vestiários, esse tipo de comparação – e a zoação com os desafortunados – é liberada, para terror de quem se sente paranoico com isso. E assim nasce mais um complexo de inferioridade…

Recentemente, vi uma mulher fazendo piadas sobre pinto pequeno em um programa de stand-up. A música famosa e as perguntas em revistas femininas comprovam que as mulheres também se preocupam com esse assunto e ridicularizam pintos pequenos, mas como sempre na comunidade gay, essa questão parece ser mais problemática.

A sexualidade gay tende a radicalizar um modelo de macheza, que enaltece o “homem ideal” composto de vários arquétipos de masculinidade, os mais óbvios possíveis: alto, forte, barbudo, de voz grossa, jeito de macho e é claro, pirocudo. É justamente a exaltação desse modelo que objetifica homens pauzudos e os transforma em “desperdício” quando preferem ser passivos, ao mesmo tempo em que força homens de pinto pequeno a dar, como se eles fossem obrigados a gostar disso por não serem considerados “aptos” a serem ativos. É difícil ver perfis de internet admitindo algo como “se for pequeno não precisa escrever”, mas não é raro ver gente dizendo que “adora um picão”.

As “desculpas” usadas com humor agridoce pelos pouco dotados acabam baseando-se em compensações do tipo “pelo menos tenho cérebro”, ou “meu corpo é incrível” e “sei usar os dedos e a língua como ninguém”. Não quero discutir o fato de que o sexo vai muito além da penetração porque isso merece outro post, mas é evidente que esse tipo de preconceito só nos segrega mais ainda.

Como são estigmatizados e desprovidos da posição privilegiada de que goza o gênero masculino, homens gays parecem sempre dispostos a oprimir. A desunião e a falta de articulação política em nossa comunidade é a prova de como procuramos nos afastar da imagem de (des)viados, reforçando a obsessão por uma fantasia hipermasculinizada.

Medir o valor de uma pessoa por causa da cor, do corpo, da conta bancária ou do tamanho do pênis não é diferente de fazer campeonato de arroto ou de quem mija mais longe. É coisa de criança e só nos diminui. É broxante.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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