Es(bran)quecimento


Nas últimas semanas, fortes críticas tem sido feitas à cantora pop Iggy Azalea, acusada por rappers e lendas do hip hop de se apropriar desses gêneros musicais sem respeitar a sua origem tanto como plataforma de contestação política-social, como uma arte em pró do movimento negro. A treta se intensificou quando Azaelia Banks se emocionou ao abordar o assunto numa entrevista.

Nas semanas que se seguiram, Banks recebeu o apoio de outros ídolos da música que conhecem bem a história da apropriação da música, ritmo e dança negros para aumentar a aceitação popular de um estilo de um público branco. Foi o que aconteceu com o rock, o jazz, o blues, o vogue, o twerk e, por aqui, com a nossa tradicional feijoada.

Elvis, Sinatra, Madonna, Miley Cyrus e inúmeros outros nomes do cenário musical são alguns exemplos. Artistas que, aproveitando-se do racismo institucionalizado na sociedade e indústria fonográfica, se beneficiaram – conscientemente ou não – ao associarem sua branquitude às expressões culturais nascidas em Nova Orleans, no Harlem entre outros guetos. Deram um rosto branco à um estilo rejeitado pela mídia pelo predomínio de artistas de cor.

Em inglês, o nome desse fenômeno também é conhecido por whitewashing, que poderia ser traduzido por desbotamento, higienização ou uma correção com tinta branca (tal como Liquid Paper). Então, na falta de um termo em português que não camufle o teor racista da prática, cunhei o título deste texto.

Para melhor elucidar as consequências culturais desse ato me servirei da opulência e fartura associadas à feijoada. Hoje um prato servido tanto em botecos como em requintados restaurantes de cozinha internacional. Muito antes do fenômeno da gourmetização, já era impossível a um gringo imaginar que tal prato era invenção de um chef de cozinha brasileiro, e não um produto da resistência de um povo que fez dos restos um banquete. Ou seja, hoje, a omissão da história negra e escrava por trás da feijoada permitiu chegarmos ao ponto de reivindicarem uma autoria branca para a receita. Somos levados a esquecer a sua origem e a creditá-la à um branco.

Talvez alguém venha argumentar que a razão de tudo isso seja que, pela maioria (representativa) ser branca, seja natural que o homem branco queira reproduzir tudo em sua imagem e semelhança. Ao que eu aponto o racismo de tal colocação: se somos uma sociedade tolerante à diferença, por que exigimos que somente não-brancos se espelhem em heróis de outra cor? Até quando crianças negras só terão um registro da sua ancestralidade exclusivamente através da representação de correntes e chicotadas? Quando pessoas de cor terão suas contribuições culturais reconhecidas? Quando nossos livros de história nos dirão que a história do povo negro não começa e nem terminou com a escravidão, já que até a etnicidade dos egípcios é esbranquecida?!

Tanto o jazz, como o blues, o rock ‘n roll e o rap surgiram com improviso e letras que mostravam ao mundo, entre outros sentimentos, a insatisfação e a miséria as quais negr@s foram submetidos. No entanto, no material world em que vivemos, toda expressão artística também é uma possível fonte de lucro a ser explorada pelos sinhozinhos da indústria cultural. Logo, toda nova forma de arte pode ser arrancada de sua raíz, sem consulta ou crédito à seus criadores, para depois ser empacotada numa embalagem preferencialmente branca.

É possível, que a essa altura, muitos fãs estejam querendo o meu pescoço apesar de não ter responsabilizado diretamente nenhum dos artistas citados. Apenas @s aponto como os rostos brancos escolhidos pela indústria para servir aos propósitos de esbranquecimento. A consciência dessas  participações são impossíveis de avaliar, principalmente dos ídolos do século passado. Algo que nem Iggy Azalea ou o rapper branco, Macklemore são.

Se de um lado temos Macklemore, que demonstra conhecer e respeitar a história do gênero musical ao qual ele pretende se inserir, do outro temos Iggy – uma cantora australiana que deu a elza se utiliza do sotaque e maneirismos de mulheres afro-ianques – que já sugeriu que assuntos raciais como o episódio de Fergson não lhe dizem respeito. Ou seja, justamente a artista que se esforça em transmitir negritude, acha por bem não defender o povo que aparentemente homenageia. Passando a impressão de que imitar negr@s está na moda, mas defendê-l@s não!

Talvez se esquivar das críticas tenha funcionado para apropriadores do passado, mas hoje a internet nada cala. No entanto, o que diferencia um artista da outra, ao meu ver, é a preocupação artística com a música. Macklemore já demonstrou habilidade e fluência ao rap que faz, enquanto Iggy comprovou, numa entrevista que é incapaz de criar versos freestyle. Uma habilidade essencial para qualquer um que se proclame rapper.

O simples fato da mídia chamar de rapper uma artista que não sabe rappear, é indicativo do seu privilégio branco. Jamais artistas negr@s alcançaram reconhecimento sem demonstrar talento na sua arte. A minha crítica, porém, não é à Iggy simplesmente,  mas à indústria que rotula de rap o que é notavelmente música pop. Com o único intuito de vender mais, já que palavrões cantados por brancos recebem classificação etária mais aceitável.

Banks, em sua emocionada entrevista, contou como é horrível perceber que o último dos ritmos criados por e para sua gente corre o risco de ser apagado e usurpado, novamente, por brancos. Causando a sensação de que afro-norte-american@s não tem direito nem sequer à  cultura (música, dialeto, moda etc.) que criaram para si mesmos. Porque cedo ou tarde branc@s virão tomar o que não lhes pertence para seu enriquecimento e entretenimento. Talvez por isso, em uma de suas letras, Iggy afirme ser “a dona dos escravos foragidos“.

Por fim gostaria de esclarecer que não há racismo em gostar de um produto de outra etnia e cultura que não a nossa. O problema jaz em saquear algo ignorando a sua razão de ser. O que se critica é a incoerência de dizer-se fã de ritmo anti-racismo e apalpar a carteira quando pret@s passam. O que se condena é o descaso com a cultura alheia quando se tira proveito dela como se um acessório de segunda mão fosse. Afinal, cultura também é política e algumas expressões dela não se esquecem disso.

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