23 cm de “perfeição” e dor!


Pobre-menino-perfeito! Branco, alto, macho e sarado, mas o pintinho nem cócegas faz. Eeeca, tem um gordo aqui! Quem vai querer? Pra quê criar um perfil desses? Que nojo! 1,75 de altura, 120 kg e… VINTE E TRÊS CENTÍMETROS DE PIROCA???! Como assim?! Onde está o botão para mandar mensagem? E aí gostoso, afim de uma real agora?

Sim, esse primeiro parágrafo é uma fantasia. É a ilustração de um fenômeno tão comum na sexualidade gay que quase pode ser considerado sua parte. É o reflexo da cultura falocêntrica que associa masculinidade ao pênis e – especialmente – ao seu tamanho. Quanto maior, melhor.

Ao contrário do que o título sugere, infelizmente esse texto não é um conto erótico sobre algum machão hétero que nunca teve experiências homossexuais e que s-i-m-p-l-e-s-m-e-n-t-e n-ã-o r-e-s-i-s-t-i-u aos meus encantos, terminando por me fazer explodir de prazer após uma noite de sexo violento – e sabor de proibido – com seu pauzão de 23 cm. O fato de, sei lá, 90% dos contos gays seguirem esse roteiro, é o verdadeiro assunto aqui.

No básico, gays são definidos como “homens que gostam de homens”. Essa definição é pobre porque a sexualidade como campo de pesquisa é extremamente complexa, e como vivência é um universo fabuloso de sensações, de taras e de pirações inimagináveis. Além do mais, a “identidade gay” como construção social leva em conta outros fatores, que podem incluir e também superar a prática do sexo entre homens. Contudo, vamos focar no básico mesmo.

Em sites e aplicativos de pegação, a regra geral é o “desculpa, mas não curto”. Como é preciso ser objetivo, as pessoas preferem listar o que gostam e o que não gostam de maneira grossa clara, frequentemente sem pensar em influências culturais que moldam nossas percepções sobre o que é bonito ou é feio. Em via de regra, dada a impessoalidade dessas relações, conceitos e preconceitos obviamente construídos são defendidos como “questão de gosto”, como se tudo fosse muito natural.

Isso vale também para a “carta coringa” – já chamei assim antes – do pau grande.

Não é uma exclusividade gay. Nossa sociedade é patriarcal, machista e obcecada por rola. O tamanho da neca é motivo de tensão entre homens desde a infância. Não estamos mais nas saunas da Roma antiga, mas o falo ainda é adorado como um Deus. E ele precisa ser grande, duro, grosso, bonito, esporrar longe… Afinal, a virilidade precisa ser bem representada, o que acaba com a estima de quem não atinge esse ideal.

Entretanto, surpreendentemente, quem também sofre com isso são os sortudos bem-dotados!

Adorados como deuses e perseguidos como fetiche, esses homens perdem sua identidade para a “cabeça de baixo”. Deixam-se seduzir pelo pequeno grande narciso e passam a exibir somente isso. Nada contra a valorização de atributos, mas e quando isso acontece em detrimento do resto, seguindo uma lógica de mercado que não considera sentimentos?

Um pauzão parece anular todas as restrições. A lógica perversa dos tabus sexuais permite que alguém escreva claramente que não gosta de negros, de gordos e de efeminados, entretanto não permite que essa mesma pessoa acrescente um “está perdoado se tiver pau grande” como regra condescendente. Só que essa pessoa é consumidora, para ela é só alegria.

Depois de gozar, ninguém pensa que por trás de tantos centímetros possa existir alguém com anseios e necessidades, opiniões, qualidades e defeitos. A pessoa talvez nunca seja notada, de repente costuma ser até excluída, e de repente abre as calças e passa a ser idolatrada. É a “objetificação da objetificação”, quando o próprio objeto vai acabar por estimular isso.

É claro que isso acontece com outras coisas que são tratadas como prêmio, como um corpinho trincado, a fama, a posição social e até alguns telefones. Quando falamos de beleza e de corpo, há também um julgamento cruel entre o que é “natural” e o que pode ser conquistado, comprado ou modificado cirurgicamente, mas só o pênis tem esse status de “vetor da macheza”, que no imaginário sexual – especialmente o gay – deve sempre ser capaz de preencher e dominar todos os buracos.

É… Acho que da próxima vez que vir um cara desses, darei um abraço e direi:

– Caralho, que mala pesada você carrega!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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