Como me Tornei Vegetariano


Há exatamente dois anos, decidi “parar de comer carne”, inicialmente uma decisão com prazo de um ano. Pra ser sincero, o rótulo de vegetariano sempre me pareceu definitivo demais e um tanto hipócrita de minha parte. Minha mãe é gaúcha e meu pai, um carioca, cuja especialidade na cozinha é o preparo de carnes. E como um bom brasileiro que sou, cresci associando carne à fartura e à uma refeição muito completa, que me autorizava a fazer cara feia pros vegetais. Então nunca me pareceu apropriado adotar uma identidade que condena um ato que desfrutei por tanto tempo.

Disse que há dois anos tomei esse compromisso mas somente amanhã, dia 04, ele realmente se inicia, pois ao fim do primeiro dia entendi que o meu maior desafio seria vencer os hábitos. Depois de ter almoçado no restaurante vegetariano que me fez acreditar que era possível fazer uma refeição sem proteína animal, e ficar satisfeito, ao fim de uma jornada de trabalho, fiz o que sempre fazia: comi um enrolado de queijo e presunto. Não porque ansiava pela minha carne suína favorita mas simplesmente porque estava acostumado a fazer isso.

Meus pais só ficaram sabendo no quinto dia. Minha mãe riu em descrença e meu pai até passou a fazer churrasco diariamente. Sem sucesso. E só! No entanto, toda nova pessoa que descobre essa minha escolha automaticamente toma pra si o papel de mãe/pai/nutricionista/médic@ e eu me encontro na função de explicar meus atos alimentares a parentes, amigos, estranh@s… Pra minha sorte, a opinião de nenhuma dessas pessoas superou os argumentos da nutricionista que procurei e que me garantiu que o único nutriente que precisava regular era a vitamina B12 e que uma dieta omnívora sempre excede em proteínas.

Frequentemente, também me encontro na difícil posição de representar toda a categoria. Se emagreço ou engordo, as pessoas fazem questão de expressar sua admiração ou de denunciar a minha suposta má nutrição. Acusam-me de estar fazer um sacrifício e fazem questão de avaliar se vale a pena ou não. Sirvo de referencial para um vasto e distinto grupo baseado na quantidade de besteiras que resolvi comer, nos exercícios que não fiz etc.

Quando não demonstram preocupação em como substituo a proteína animal (arroz, feijão, amendoim, brócolis, etc.) as pessoas geralmente tentam me convencer de que o ser humano é carnívoro por natureza apesar de não terem contra-argumentos para o fato de que não possuirmos dentição para dilacerar a carne ou facilidade para digerir a mesma. E aos chatos que insistem em tentar me desfazer de uma decisão que não lhes diz respeito mesmo reconhecendo que nunca poderíamos ser carnívoros restritos como felinos, pergunto se o cheiro de sangue lhes abre o apetite tal como tubarões, leões, porque se fosse assim mulheres deveriam ter privilégio sobre o consumo de carne. #regras Sim, ouvir alguém encher o peito pra me dizer que é carnívoro, hoje, me soa tão inteligente quanto dizer que por usar tanque de oxigênio pra mergulhar o ser humano é um animal aquático.

Enfim, amanhã completo dois anos sem comer carne, mas somente depois do primeiro me assumi vegetariano. Tanto porque fui obrigado a me identificar assim para a compreensão dos outros, como também porque, já nos primeiros meses, percebi que não era tão difícil quanto imaginei e me livrei do prazo inicial. Como é uma identidade escolhida, constantemente me vejo obrigado a defendê-la e debatê-la. Vez ou outra alguém tenta me convencer de comer um shushi “só dessa vez”, como se caso eu quisesse, eu não pudesse furar o embargo  e me entupir de bife quando ninguém estivesse olhando. O que parece mais difícil para algumas pessoas aceitarem é que eu não sinto falta alguma. Mesmo! Mas talvez seja mais fácil acreditarem que eu padeço diariamente de vontade.

Quando na verdade a minha única dificuldade é tentar vencer a minha compulsão por chocolate e pizza que me afastam do veganismo e consequentemente de uma total proximidade com os ideais feministas e queer que almejo defender.

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