Dando pinta no réveillon!

Dando pinta no réveillon!

Bolas prateadas decoram as mesas de banquete, cintilando nas borbulhas de champagne, enquanto bolas peludas dançam em jockstraps, estranguladas por anéis penianos cromados. Tudo combinando, tudo branco, tudo fabuloso!

É hora de brindar um novo ciclo e o DJ contratado especialmente para a ocasião está inspirado, assim como estava o dealer que caprichou na “colocação” da noite. A vista privilegiada é emoldurada pelos convidados ilustres – aimeudeuséaNaomi!

Nas praias, a bebida escorre deixando roupas transparentes e formando uma lama doce ao chegar na areia. Música, show, pegação e esperança.

Nas vielas do Centro e sob as árvores dos parques, o diário sexo underground tem sabor de celebração. Nas boates, o de sempre está o triplo do preço. Em algumas casas, será o primeiro réveillon de famílias que só foram reconhecidas há pouco e depois de muita luta, e que só esperam não perder esse status no ano que vem. Do Rio de Janeiro a Nova York, da Cidade do México a Praga, de Paris a Tóquio… Os “filhos do arco-íris” também esperam um recomeço.

No Brasil, a disputa eleitoral passou e agora teremos um congresso ainda mais conservador. Inúmeros LGBT vão morrer esse ano, apenas por serem lésbicas, gays, bi, trans, queer… Alguns vão virar notícia e ainda vão acabar responsabilizados por tudo, acusados pelo “tribunal da internet” de arrastar nosso santo nome na lama. Enquanto os bonitos “sortudos” vão inspirar protestos nas ruas e campanhas no Facebook, outros tantos não serão sequer lembrados, e no fim ainda vai ter gente para falar na “ditadura gayzista”.

Milhares de perfis novos – com fotos sem camisa ou com a Torre Eiffel ao fundo – serão criados nos aplicativos para buscar por aquilo que ainda é visto como o “prêmio máximo”: homem branco, ativo, discreto e FORA DO MEIO. Questão de gosto, né? Mas deixa quieto, já falamos muito disso.

Vamos celebrar um novo ciclo.

Uma nova temporada do programa do RuPaul vem aí, assim como os escândalos da Lindsay e o “vazamento” da edição “platinum-master-diamond-deluxe” do álbum secreto da Madonna ou da Bey, para “tombar” geral. Ninguém sai! Novos memes vão derrubar os forninhos, fechar o tempo e lacrar com as inimigas.

O verão vai aumentar a pressão, para que malhemos nossos corpos. As festas vão promover namoros curtos que resultarão em posts constrangedores nas redes sociais. No carnaval, as festinhas são mais hardcore e os turistas costumam ser mais gostosos, embora pareça que nada poderá superar a Copa 2014 nesse quesito. O Rock in Rio vai arrasar esse ano, mas de nada adianta sonhar com o retorno das Spice Girls

É um novo ano. Aquele amiguinho pegador talvez se apaixone de verdade e a “maricona” com mais de 50 vai finalmente sair de cena, se exilando com seus michês na Itália ou com uma coleção de gatos no apartamento ao lado. Décadence avec élégance. Os novinhos vão treinar coreografias assistindo vídeos do YouTube.

Estereótipos, generalizações, o “meio”, a “cultura LGBT”, o “Movimento GGGG”, a falta de ativos no mercado, a discriminação dos passivos, a objetificação do negro, a disputa para eleger a melhor diva… Tudo novo. De novo. Igual, mas diferente.

Tem gente de fora? Claro! A pessoa pode não participar de nada disso, acho tudo bobagem. Pode negar, voltar para o armário e passar a chave dez vezes. Mesmo “fora do meio”, o desejo está dentro. A viadagem é a esposa ciumenta que escolhemos não ter, equipada com o “GPS de pica” que a poesia do funk já cantou. Ela sempre nos localiza e por isso, nos controla.

Um novo ano. Tudo de novo. Tudo igual. Que mal há nisso? Talvez a melhor promessa seja a de parar com um julgamento tão duro dos nossos desejos e das nossas identidades. O que ganhamos com isso?

Dez… Nove… Oito… Sete… Seis…

Tim tim! Um brinde a um sonho de aceitação em que nossas piadas e ficadas sejam apenas algo bobo, que não cause repulsa em ninguém, a começar por nós mesmos. Um brinde a um tipo de respeito que precisa nascer dentro de nós.

Cinco… Quatro… Três…

Tudo igual, mas vamos sobreviver. We will survive. Beijos, abraços, lambidas, chupadas, cutuques, likes… É só aprender a respeitar as diferenças. Não é isso que tanto pedimos?

Dois… Um… FELIZ ANO NOVO!!!!!!!

Fogos de artifício arrebentam em todas as cores e as pessoas acham lindo. Isso me lembra a música da Katy Perry.

Permita-se. Seja livre. 2015 com certamente será fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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