Americanah


Americanah, romance ganhador do prêmio National Book Critics Award e eleito um dos dez melhores livros do ano pela New York Times Book Review foi escrito pela nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (foto) e foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Julia Romeu.

A narrativa começa em media rés. Lembram de Lusíadas? Ok, ninguém lembra. Mas media rés é quando a narrativa “começa depois de já ter começado”. Ou seja, ao meio – media – e vai pra trás – rés. Isso serve pra gente saber o que aconteceu antes pra chegar naquele momento, e então segue em direção ao desfecho.

Na história, a heroína decide voltar a morar na Nigéria, mesmo tendo conquistado uma boa vida nos EUA – lugar para o qual se mudou mais de dez anos antes, para fazer faculdade e conquistar o sonho americano. Enquanto esperamos o retorno da protagonista, Ifemelu, para a Nigéria, somos lançados para a sua infância e a relação que tinha com os pais: a religiosidade quase fanática de sua mãe, os discursos empolados de seu pai, sua relação com sua tia Uju, o seu primeiro amor, os primeiros anos na universidade nigeriana e então a sua mudança para os EUA e tudo o que lhe aconteceu após a sua chegada na terra da “democracia e liberdade”.

É nesse contexto de mudança que Ifemelu começa a perceber não só as diferenças raciais, mas as nuances dessas diferenças, no mundo americano. É nos EUA que a questão raça passa a se impor na sua vida e em como ela vai mudando por conta dessa nova realidade. A personagem passa a ser assim, Americanah, termo que suas colegas e conhecidos usam para definir uma pessoa que saiu da Nigéria a fim de morar nos Estados Unidos e passou a adotar os costumes de lá, passando assim a questionar os valores de seus conterrâneos.

Engana-se, contudo, quem pensa que Chimamanda coloca um discurso de cultura melhor e cultura pior na “boca” de Ifemsco (apelido). Há a apresentação das diferenças, inclusive a existente entre o próprio povo americano, e há o questionamento. Mas evitando ao máximo um juízo de valor muito arraigado, daquele que quer convencer e demonizar a cultura do outro. O que se tem é uma tentativa de observar as coisas. E isso é constatado no blog que Ifem possui, chamado “Raceteenth ou Observações Diversas sobre Negros Americanos Feitas Por Uma Negra Não Americana”. Sua página também pretende explicar e dar dicas de como proceder em alguns casos relacionados a questão da negritude em solo norte-americano, com um pouco do humor rascante característico da personagem.

Também é equivocado quem imagina que a questão da cor não é algo existente nos EUA (nos jornais recentemente o que mais se fala é do caso de Ferguson). Lá há, tal como aqui no Brasil, um discurso de que não existe preconceito racial, embora abordado e executado de outro modo. E isso fica claro em quase todas as passagens do livro, mas, para mim, duas são as que chamam mais a atenção:

1. Quando ela afirma que só se dá conta de ser negra ao estar nos EUA. Ela nunca havia se pensado assim, já que “todos” em seu país são como ela. Nesse aspecto, chama a atenção que ser mestiço, ou não tão negro, é o que chama a atenção, embora não seja visto como algo ruim (pelo menos é essa a ideia que se tem a partir do texto), mas como algo exótico e com beleza;

2. Quando Ifem já está de volta à Nigéria e ela recebe a visita de seu primo Dike, que assim que chega fica surpreso pela quantidade de negros e afirma nunca ter vistos tantos num mesmo lugar.

Tudo isso evidencia não só o deslocamento geográfico, mas as perspectivas culturais (sociais e raciais) das personagens, transformando-as, como no caso de Ifemelu, em Americanahs ou como define Hermano Vianna, no prefácio de Nação Crioula de Eduardo Agualusa, em fronteiras perdidas. Ou seja, pessoas que não pertencem mais culturalmente a um lugar específico são pessoas que não estão lá e nem cá.

O que vai de encontro à jornada do herói. Todo herói é uma fronteira perdida, pois sendo obrigado a se apartar de seu lugar no mundo para se encontrar ou encontrar algo que lhe falta, ele se torna um sujeito ainda mais distinto dos demais, o que torna ainda mais evidente no retorno de sua jornada. É o que Ifemelu descobre, no seu retorno a Nigéria. Ela tem que descobrir um jeito de participar dessa nova realidade, que lhe é muito familiar.

Mas o que isso tem a ver, por exemplo, com as questões LGBT, caro leitor? Eu penso que muita.

Primeiro que é uma coisa que temos muito no Brasil, pois assim como Ifemsco discute sobre o fato de a questão racial nos EUA ser algo constantemente evitado e, quando trazido à baila, torna-se um incômodo, nós “criamos” o pardo, por exemplo, numa clara tentativa governamental de embranquecer o país, décadas atrás.

Segundo que, tudo se torna mais aceitável quando se tem dinheiro ou reconhecimento social – e muito mais aceitável quando se tem os dois.

Isso não é muito diferente entre nós LGBT. Há, assim como é mostrado no romance em relação aos americanos, toda uma hierarquia na diversidade sexual e de identidade de gênero que nos coloca em determinado lugar e a aceitabilidade que temos no meio LGBT e fora dele. E essa situação fica muito evidente nos vídeos que se tornam virais na internet. Geralmente são de homossexuais pobres, negros e afeminados ou de transexuais e travestis. Mesmo com uma apropriação do vocabulário e mesmo de alguns trejeitos, o que percebo é mais um movimento de deboche, de rir do outro, do que necessariamente pôr-se ao seu lado.

Quantas dessas pessoas que acham graça nos vídeos gostariam de ser amigas e conviver em espaços públicos com seus alvos de deboche? Agora, quantos adorariam ser amigos de um Bruno Chateaubriand da vida?

Em Americanah, percebemos um pouco como essa tolerância com LGBT se dá por essas questões financeiras e de status social: na passagem em que Emenike, um conhecido de Ifemelu dos tempos de colégio na Nigéria, se casa com uma advogada em Londres. Emenike sempre fora pobre e fizera de tudo para esconder isso dos amigos, que ou tinham dinheiro ou status. Porém, agora que o personagem tem dinheiro e mora em Londres é admitido por pessoas cultas, que viajam e dão jantares e fazem caridade. Nesse círculo de novos amigos, há um homossexual que com ele flerta e é amigavelmente recebido. Contudo, esse mesmo Emenike, que parece conviver bem com o seu amigo homossexual, é o mesmo que, anos atrás junto de outros colegas de colégio, encurralaram e espancaram um outro menino, por ser gay e dizerem que ele pagava para chupar o pau dos meninos mais novos.

Emenike aceita o amigo europeu e gay por conta de sua nova condição social e é aceito também por causa dessa nova realidade em sua vida, evidenciando algo do preconceito: que é o fato dele nunca estar sozinho e basear-se na especificidade, seja ela de classe, de cor ou de orientação e identidade de gênero. Por isso, combater desigualdades e preconceitos é tão difícil, pois é necessário estar em várias trincheiras ao mesmo tempo.

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