Como lacrar na festa da família?


Então é natal, como já disseram a Simone e a Leader Magazine. É época de bolas enfeitadas, de sacos pesados e da gente engolindo peru. O que esse dia tem de diferente dos outros mesmo? Bem, nem todo mundo é capitalista cristão de celebrar essa data, já que na improvável hipótese de Jesus ter existido, certamente que seu aniversário não era em 25 de dezembro. Entretanto, é ótimo que seja feriado e que quase todo mundo tenha entrado de férias. Com o calor que se anuncia não há maquiagem que resista, então é melhor ficarmos em casa mesmo!

dando pinta

Nessa época do ano, os problemas do dia-a-dia ficam em segundo plano e dão espaço a um clima de amor e amizade patrocinado pela Coca-Cola. É meio falso, mas não chega a ser ruim. Semana que vem começa o ano novo e mal ou bem, esse clima de renovação serve para fazermos algumas promessas, reatarmos antigas amizades, lermos aqueles livros que estão apenas enfeitando a estante, programarmos aquela viagem dos sonhos, etc… Mas é claro, nem tudo são flores.

Sem contar as pessoas de religiões não-cristãs, há muita gente que não tem o que celebrar nesse dia porque nem família tem. Para muitos LGBT, essa instituição que teoricamente formaria a nossa base foi apenas a primeira de vários algozes, e isso não é coisa que se ignore. Hoje, fazemos piada com a tia que pergunta sobre “as namoradinhas” para o sobrinho efeminado, mas quantas crianças não se sentiram oprimidas por esse tipo de indagação? Quantos pais não renegaram seus filhos gays e suas filhas lésbicas, e preferiram atirar filhxs trans às ruas? É essa a “boa nova” de Papai-do-céu? Ou será que só as crianças “normais” podem sentar no colo do bom velhinho? Bem, essa parte talvez seja melhor deixar para lá…

Para “lacrar” com o natal – e com qualquer instituição opressora – a via do “tiro, porrada e bomba” parece ser a mais eficiente. Aparecer vestido de Carmen Miranda e mostrar habilidade ao engolir uma banana enquanto dubla o melhor de RuPaul ou as músicas vazadas da Madonna certamente farão sua tia perceber quem você gosta de namorar. De repente, encaminhar acidentalmente aquele vídeo esperto do WhatsApp para o grupo da família também funciona, ou você pode presentear seus primos com camisetas estampadas com prints dos perfis deles no Grindr. O céu é o limite!

A questão é que o que poderia realmente LACRAR – com este e com todos os outros natais – seria um pouquinho mais de tolerância e de amor.

Às vezes, as pessoas se preocupam com o tamanho do pinto presente ou se a festa vai sair “nos conformes”, mas isso não é importante. Seria realmente mágico se os slogans cafonas dessa época fossem praticados no restante do ano e as diferenças fossem respeitadas, acolhidas e principalmente, CELEBRADAS.

Então Joana escolheu ser chamada de Bruno? Pedrinho – tão magrinho e “bibinha” – é somente ativo? E Marcos, que mais parece um lenhador, e é apenas passivo? O que dizer de Gabriel, que depois da transição manteve o útero e os ovários para um dia ser um pai gestante? Marcelo é gordo e não tem interesse nenhum em emagrecer, enquanto Bianca gosta de todos os tipos de meninas, de “machudas” à “sapatinhas”, e Astrid é bi e não está nem aí para o que pensam disso. Já Ariel, adora seu nome porque é genderfluid e tem dias que se monta “de homem” e dias em que a montação é “de mulher”. Não é fabuloso?

“Noite feliz” será aquela em que gostos, preferências, comportamentos e tendências não forem mais usados para definir identidades e estigmatizar pessoas. Aí, quem sabe, todo mundo se sentirá livre para andar como quiser e transar com quem quiser, sem precisar chamar isso de Carnaval.

Ao invés de lacrar, vamos liberar!

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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