Bichas afetadas: identidade ou degeneração pós-moderna de gênero?


Post do colaborador Thales H. Pimenta. *

Em novembro do ano passado vi a primeira parte de Mockingjay, uma adaptação cinematográfica do livro da escritora Suzanne Collins que dá continuidade à narrativa de Jogos Vorazes e Em Chamas, sendo mais conhecido por aqui como Esperança. No contexto histórico que a autora constrói somos apresentados à nação de Panem, que se estrutura após conflitos de classe, guerras civis e uma série de disputas por recursos, territórios e forças de trabalho na América do Norte. De realidade pós-apocalíptica, a formação política e geográfica do país compreende doze distritos que também funcionam como campos de trabalho semi-escravo em dimensão quase continental sendo comandados por uma metrópole tecnologicamente avançada e ocupada apenas por grupos de elite – que são responsáveis diretos, por sua vez, pelo estabelecimento de seu Estado-nação e pelo monopólio dos meios produtivos. Pessoas nascidas nos distritos não têm direito à diversidade ou à identidade cultural, sendo praticamente reduzidas em seus hábitos, costumes e tradições às atividades laborais de cada região.

Tal como na obra, os filmes se dão em primeira pessoa pela perspectiva de Katniss Everdeen, uma jovem do 12º distrito que se voluntaria no lugar da irmã de 12 anos para lutar até a morte em um reality show transmidiático de nome “Jogos Vorazes”, tendo assim uma oportunidade de também visitar a Capital. Do primeiro filme até a parte um do terceiro, Katniss sai vencedora da 74º edição dos jogos, é sorteada para participar da 75º – um especial ao qual só os vencedores de outras épocas podem ser sorteados – e declara guerra contra o sistema vigente após ser salva pelo povo do 13º distrito, que resistiu às retaliações atômicas da metrópole formando uma grande cidade subterrânea. Vale ressaltar que a produção midiática dos jogos começou 75 anos antes em homenagem ao sucesso da Capital contra uma tentativa de golpe liderada por esse distrito, que até então parecia extinto. Linhas de contextualização à parte, a intenção do texto não é exatamente discutir o futuro norte-americano desenhado por Collins em sua trilogia distópica, mas usar alguns aspectos culturais das sociedades fictícias de Panem como um ponto de partida para pensar no que chamo de gêneros afetados, com ênfase para as masculinidades desviantes.

Desde que chega à metrópole de trem pela primeira vez, Katniss é surpreendida por processos e manifestações culturais da Capital especialmente no que se refere às maneiras de seus cidadãos e às suas formas de vestir. As roupas, além de muito pesadas, coloridas e expansivas, são também próteses e computadores vestíveis que expandem as habilidades humanas, transformando os capitolinos em ciborgues com suas funções ora técnicas, ora estéticas, ora comunicacionais. As maquiagens, por sua vez, dão às pessoas da metrópole em conjunto com suas roupas e maneiras uma amplitude de expressões e performances na seara de gênero que simplesmente não é vivida nos distritos. Todo esse universo visual é representado por mulheres hiperfemininas, homens em sua maioria andróginos e pessoas que talvez fossem lidas, neste século, como performers ou mulheres transgêneras – ainda que não haja tanta referência a quais seriam as categorias de gênero ou até sexualidade no momento histórico constituído pela ficção. É preciso pontuar que a narrativa original, em nenhum momento, traz observações de Everdeen ou qualquer outro personagem sobre as questões e vivências de gênero da metrópole a ponto de tirar nossas dúvidas a esse respeito, o que me fez assumir os filmes não só como adaptação, mas também tradução, dado que seus rumos são muitas vezes independentes e a linguagem do cinema dá materialidade a dimensões que não haviam sido exploradas na obra.

De tão independentes nesses aspectos, os filmes também incorporaram um pouco das crenças e dos valores socialmente construídos sobre a extravagância de gênero, algo que vem sendo retratado desde as literaturas mais antigas até a cultura pop contemporânea como sintoma de um suposto mal-estar cultural em processo. Diga-se de passagem, entre os cidadãos da Capital só vemos pessoas que extravasam seus fazeres identitários em um universo de significantes lidos por qualquer espectador como femininos. Uma vez que não temos acesso aos autorreconhecimentos, subjetividades e vivências íntimas dos figurantes, estando expostos à dimensão visual das experiências de gênero apresentadas sem qualquer pista sobre como elas são significadas em Panem, o que esses filmes parecem fazer é não só um apagamento de aspectos ditos masculinos em expressões de gênero entendidas como femininas ou mesmo das experiências material-visuais de homens transgêneros e pessoas não-binárias, muito possivelmente, mas também uma representação dos femininos que ali transbordam como sintomas de uma metrópole decadente que domina a todos, possui de tudo, permite-se viver a banalidade em infinitas nuances de hedonismo e ainda consome substâncias – vejam só! – que induzem o vômito, fazendo de sua participação em festas e seus respectivos banquetes uma experiência sem limites.

Falando numa posição de espectador, pra mim tem sido um choque oscilar entre as cenas passadas nos distritos e na metrópole desde o primeiro filme. De um lado, o universo visual das identidades e performatividades de gênero é estereotipado em termos obviamente estratégicos para contextualizar a decadência moral dos grupos de elite. De outro, vejo as zonas distritais sendo retratadas como culturas sob tirania nas quais seres humanos vivem o estatuto de reprodutores e forças de trabalho, tudo isso em uma vivência de gênero que os posiciona como machos ou fêmeas e, também, num vestir bem mais restrito cujas cores se alternam somente entre o preto, o branco, o marrom e o cinza. Os significantes de gênero, por sua vez, têm a cisgeneridade e o binarismo como suas epistemologias fundantes, sem qualquer lugar para a diversidade sexual e de gênero. É um mundo possível? Talvez vocês estejam tentados a responder que sim, exatamente porque se pode esperar de contextos com tão pouca liberdade a constituição de um universo social onde as expressões de gênero e/ou sexualidade são determinadas pelos dispositivos, forças e práticas de governamentabilidade vigentes. Isso não seria tão surpreendente.

Por um lado, não penso que seria função dos livros ou da tetralogia fílmica trabalhar questões de gênero ou sexualidade em seus microcosmos. Por outro, a falta de experiências contra-hegemônicas nessa dimensão dos distritos – quando postas quase em comparação às extravagâncias e degenerações vividas na Capital – gera um enorme descarrilamento de sentidos sobre o que pode ou não ser entendido como normal pelo público. E isso parece ainda mais problemático quando o monopólio dos meios de produção é de uma elite diversa em suas vivências e expressões de gênero, dando a entender que:

a) talvez não haja uma normatividade de gênero imposta verticalmente sobre as zonas distritais;

b) gente limitada por escolha ou abuso institucional à rotina de trabalho e às suas necessidades mais básicas jamais se daria ao desfrute de viver múltiplas experiências de gênero. Mas como se sabe, a história mundial tem mostrado o contrário em grande parte dos seus períodos de repressão porque também somos cidadãos ativos com trajetórias marcadas pelo desenvolvimento de competências, estratégias, símbolos e sistemas de resistência em meio aos campos de força que nos afetam dentro da vida social. Se por um lado é difícil conceber uma narrativa na qual não existe espaço para o diferente em contextos como esses, por outro é mais difícil ainda aceitar que não se deem experiências individuais e coletivas de transgressão – o que também nem sei até que ponto seria necessário numa nação de lideranças tão queer como Panem, pra ser honesto. Diante de representações como essas, acabamos numa construção de sentidos que não se difere em nada da imagem projetada pela esquerda de muitos países quando ela nos diz que não existe espaço para a diversidade sexual e de gênero no mundo da classe trabalhadora porque isso seria, a rigor, um tipo de vício para o qual só o pequeno burguês teria tempo, como assinala o relatório recém-publicado pela Comissão Nacional da Verdade no que diz respeito ao setor populacional LGBT e aos desafios enfrentados por nossa militância durante a ditadura civil-militar brasileira.

Precisamos reconhecer, sim, que os canais por onde flui a comunicação de nosso setor populacional, ainda marcado pelo protagonismo quase predatório do segmento gay em diferentes níveis, privilegiam a construção e a performance de homossexualidades que não podem ser praticadas nas mesmas proporções entre homens de distintas classes e etnias. Em um dos textos mais populares do site, Arthur Romeu aborda o impacto das políticas de armário como uma questão de consciência negra justamente porque elas exigem certos lugares, posições e papeis sociais que não são algo geral, ainda, entre os integrantes do segmento gay, tendo-se em vista a nossa multiplicidade de recortes e realidades. Fazendo uma crítica nessa perspectiva, é evidente que ainda precisamos falar de interseccionalidade e das suas respectivas questões, assim como descentralizar a homossexualidade de suas representações hegemônicas, que trabalham reforçando práticas, sociabilidades e culturas de consumo cuja essência é a sua epistemologia de exclusão, como também é refletido por outro autor do site em seu texto “Não existe bicha pobre?”.

Ainda assim, o que se faz na adaptação cinematográfica dos livros de Collins ou mesmo nos movimentos, coletivos e demais grupos da sociedade civil que chamamos de esquerda é a projetação da imagem quase romântica de uma classe trabalhadora que não vai muito além da oposição biologista entre machos e fêmeas, o que nos leva a dois perigosos entendimentos:

a) vivências saudáveis de gênero e sexualidade seriam as heterossexuais e cisgêneras, estando por isso bem longe de qualquer desviância;

b) toda degeneração de gênero é produto das colonizações sistemáticas de classe, como que em um movimento de industrialização identitária vertical onde a chamada burguesia determinaria aquilo que é possível – ou não – de ser experimentado e vivido.

Se por um lado a luta de classes sobre a qual se debruçam as militâncias de esquerda pela classe trabalhadora não pode ser deixada de canto, por outro parece que sua perspectiva epistemológico-teórica ainda reproduz uma série de noções essencialistas sobre trabalho num cenário em que ele já não é o único meio relevante de produção, como alerta Beatriz Preciado em entrevista recente, além de não refletir sobre fenômenos urgentes como pós-colonialismo, biopoder, gênero, sexualidade, corpo e os fluxos migratórios contemporâneos – que também são dimensões constituintes do que está sendo vivido de mais problemático nos últimos tempos.

Nesse horizonte, por mais que as micropolíticas econômicas entendidas como pink money e as práticas, sociabilidades e culturas de consumo através das quais se estrutura o contexto disso coloquem em evidência uma homossexualidade neoliberal, hipermasculina e socialmente higienizada, afirmar que as experiências de gênero e sexualidade atuais seriam degenerações da dita burguesia significa ignorar que:

a) gêneros afetados não integram os circuitos em que se faz o pink money e, por isso, sujeitos desse recorte não têm o estatuto de agentes efetivos do sistema;

b) acontecem apagamentos identitários no setor populacional LGBT quando se diz que essas experiências de gênero e sexualidade não são possíveis em todo contexto social, o que diminui a autonomia de as quem vive concretamente e produz uma espiral de retrações, silêncios e esquecimentos;

c) se as degenerações são entendidas como burguesas há mais de um século, o discurso da esquerda é contraditório por assumir com isso que os gêneros e sexualidades desviantes têm historicidade ao mesmo tempo em que os trata como produtos de uma ideologia pós-moderna equivocada.

Daí a necessidade de questionarmos categoricamente o que é de fato revolucionário – para além das lutas de classe – quando camadas identificadas como esquerda e direita trazem tantas semelhanças político-discursivas no que se refere a questões como gênero e sexualidade, mesmo que a segunda tenha certo protagonismo nas manifestações mais violentas de preconceito, afinal tudo isso está intimamente ligado.

* Jornalista militante e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) na linha de pesquisa de Cultura, Cidadania e Tecnologias da Comunicação.

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