#NossaFamíliaExiste


No básico, aprendemos que a família é nosso “porto seguro”. Nossa sociabilização, a mídia, a religião… Tudo diz que essa instituição – a primeira que conhecemos – é a base sob a qual nos construímos. Há famílias mais tradicionais, com pai, mãe, filho e cachorro, e outras pouco convencionais. Mães solteiras, casais sem filhos, irmãos sem pais, “crianças” que latem ou miam. Vale tudo, ou pelo menos deveria valer.

A campanha #NossaFamíliaExiste é uma resposta à votação do Estatuto da Família, que quer definir a entidade familiar como formada exclusivamente por casais heterossexuais. Além disso, há a tentativa de alteração do Estatuto da Criança e do Adolescente, visando impedir a adoção por casais homoafetivos. Que amor, não?

Desabafo: por mais que eu já tenha “anos de estrada” e tenha escutado muita coisa, ainda mais quando o assunto é política ou direitos humanos, sempre me espanta a maldade das pessoas. Acho chocante essa leitura de que o direito do outro está necessariamente diminuindo o seu, e que por isso tal direito deva ser negado. Essa ideia de que um cidadão – um irmão, afinal – vale menos, merece menos. Como assim, gente?

Não preciso usar o clichê de “toda criança adotada por um gay foi abandonada por um hétero”, néam? É importante debater a questão da adoção porque as pessoas precisam ter seus direitos garantidos, mas acho mais interessante refletir sobre o que entendemos por família e como isso se configura na experiência LGBT.

Ora, esse conceito de “base de apoio” é amplamente difundido, mas para muitos de nós a coisa não é bem assim. Quantos filhos e filhas lésbicas, gays e transexuais são expulsos de casa diariamente? Quantos são mortos pelos próprios pais ou condenados a viver a vida escondendo sua sexualidade ou suportando a discriminação dentro de casa? De quem é a culpa nesses casos? Da família? De Deus?

O estigma, a homolesbotransfobia, corrói todo tipo de relacionamento. É por causa desse sentimento de ódio que laços culturalmente vistos como sagrados se desfazem e que uma parcela da sociedade considera legítimo que se faça uma cruzada contra o estilo de vida dos outros.

É importante mostrarmos a cara de nossas famílias e mostrar que existimos. É importante, também, deixar claro que existem diversas configurações de família e que a dádiva de um filho – biológico ou não – é apenas outra possibilidade. Politicamente, é fundamental investir na ideia de que “também somos normais” e exibir pais orgulhosos com crianças felizes. Essa opção de vida é linda e deve ser celebrada. Entretanto, ela não poder ser imposta como norma.

Escolhi a foto de um grupo de amigos para ilustrar esse post porque eles também são uma família. Laços de sangue são importantes, mas a vida adulta nos permite escolher nossos familiares e muitas vezes um amigo é infinitamente mais próximo do que um irmão. Para quem é expulso de casa então, nem se fala! Na ótica do amor romântico, um parceiro – que em geral é uma pessoa completamente estranha por quem nosso primeiro interesse é sexual – passa a ser considerado uma “alma gêmea”. Há famílias de amigos do Whatsapp e até namoro via Skype, então por que uma relação hétero é instantaneamente reconhecida, enquanto parceiros gays ainda são apresentados como “aquele amigo do fulano”?

É sério que a coisa só vale se tiver filho no meio? E quando o casal, tenha o sexo que for, não pode ou não quer ter filhos? Não vale nada?

Em uma semana, a maior parte do mundo estará trocando presentes e comendo presuntos agridoces em uma celebração de amor. Pelo menos, é isso que afirma a Coca-Cola. Infelizmente, nem todo mundo terá o privilégio de “abrir a felicidade” e abraçar um ente querido pensando em Jesus. Não é triste, então, que existam pessoas empenhadas em desfazer os sorrisos de gente que lutou tanto para conseguir isso?

 

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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