O melhor amigo de uma garota


Legenda da foto: Eu linda, rindo muito com meu amigo Stanford.

Pode esquecer os diamantes. Atrás de uma grande mulher, há sempre um fabuloso amigo gay! Não que qualquer mulher precise de homem – mesmo homo – para alguma coisa, mas esse tipo de frase é figurinha fácil em memes cafonas e seriados frívolos. O cara que dá dicas de moda e cabelo de graça, e que oferece um ombro forte quando algum boy vacila. O amigo perfeito que carrega as compras e compartilha fofoca! Estereótipos que tratam de um tipo de relação singular: a amizade entre mulheres heterossexuais e homens gays.

DandoPintaSloganSerá que começa na infância? Os meninos gays ficam de fora de futebol e as meninas são “umas chatas”, então há uma experiência primária comum, a de rejeição – e fascínio – pelos pequenos homens. Alguns gays se identificam muito com o feminino, e antes que a dúvida seja entre Anitta e Pitty, a escolha difícil é jogar com a Chun-Li ou com a Cammy, ou  quem sabe se a melhor heroína é ou a Vampira ou a Mulher Maravilha. As meninas amadurecem primeiro e começam a sonhar com namoradinhos, enquanto os futuros comedores disputam quem mija mais longe e arrota mais alto.

Será que a questão é o sexo? Homens gays não são “predadores em potencial” dispostos a “dar o bote” e transformar a amizade em algo mais. Além disso, são bonitos e bem cuidados, com “alma feminina”. Servem de “p0nte” entre dois mundos, traduzindo para as amigas o comportamento bizarro do macho, enquanto formulam visões sobre “o que as mulheres querem”. E se, por acaso, uma noite regada a Tequila terminar com uns amassos, so what?

Ah, não Freud!

Essas possibilidades clichê chegam a incomodar, mas com certeza representam a trajetória de alguém. Há uma tendência generalizadora, que define o que seriam experiências “de gay” e “de mulher”, como se grupos fossem formados por pessoas iguais, com vivências e com desejos iguais. É evidente que a cultura de gênero vai moldar essas relações, já que humanos são treinados a ver o mundo em azul ou rosa, criando padrões de interação que afetam toda a sociedade, do amor aos direitos trabalhistas. Apesar dos problemas, homossexuais gozam do privilégio de vivenciar o espaço do meio.

Homens gays não deixam de ser homens, mas passam por algumas experiências semelhantes às das mulheres, pelo menos na vida sexual. Entendem a competitividade masculina e podem admitir a canalhice do estereótipo de “pegador”, lembrando que isso é imposto a todos os homens. Já o arquétipo do “colega afetado” – outra faceta “humorística” da representação gay, feita para castrar nossa sexualidade através da afeminação – foi criado para que gays e mulheres não ameaçassem o frágil conceito de “honra” (e posse) machista. Afinal, qual é o perigo?

O senso comum reconhece o erotismo da parceria. Em Will & Grace, um sitcom inteiro sobre essa dinâmica, os protagonistas frequentemente chegavam ao limite entre a amizade e a paixão, com demonstrações de ciúme e óbvio prejuízo para os namoros de verdade. Madonna teve um filho com o amigo Rupert Everett, em “Sobrou pra você” (2000); e volta e meia temos um gay “virando a casaca” nas novelas brasileiras por uma amiguinha apaixonada.

Tive e tenho grandes amigas, com maior e menor intimidade. Com uma, vivi o que considero o relacionamento mais significativo da minha vida. Eu e ela não nos falamos mais e isso ainda dói, mas os anos passados já me permitem tocar no assunto com tranquilidade. Talvez a graça da nossa simbiose residisse justamente em ser um “namoro sem sexo”, mas era cômico que ela sentisse ciúmes se eu demonstrasse interesse por alguma menina, enquanto costumava aprovar meus ficantes masculinos. Dependendo do dia, eu tinha que carregar sua bolsa, e sempre deveria prover minha cavalheiresca proteção ao acompanhá-la até em casa.

Se algum namorado – tanto meu quanto dela – não estava disponível para um programa, nos bastávamos. Aliás, geralmente só andávamos juntos e sair com eles é que era a exceção. Festas de família, casamentos de amigos, batizados de boneca… Estávamos sempre juntos, num tipo de identidade partilhada – que na verdade eu nem recomendo – que alguns casais levam anos para conseguir.

É óbvio que esse amor-amizade é muito especial. Não existiriam tantas histórias e formas – equivocadas ou não – de representar essas relações se elas não constituíssem um fenômeno social em si. Não dá para tratar um “amigo gay” como acessório, até porque não somos eternos – ao contrário dos diamantes -, mas os machos heterossexuais ainda precisam aprender muito sobre como tratar uma mulher. Para nós, é mais fácil. Mães, amigas, namoradas acidentais… São todas DIVAS!

Esse post é dedicado às minhas Allines, Anas, Brunas, Mariannas, Renatas, Carolines, Tatianes, uma Namy e é claro, à Vanessa.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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