AIDS: a doença moral da mídia


Três décadas depois do tenebroso início da epidemia de AIDS, o estigma moral associado às pessoas vivendo com HIV permanece. Não exatamente como o câncer gay divulgado pelos telejornais na época, mas como algo condenável pela hipocrisia puritana das sociedades ocidentais. Nem mesmo as décadas de campanhas de prevenção e informação sobre a doença foram suficientes para que encontremos raras associações entre a doença à promiscuidade e à homossexualidade.

Inicialmente relatada ao fim da década de 1970, a síndrome da imunodeficiência adquirida foi detectada em homens gays da Califórnia e Nova Iorque (EUA), no entanto, ainda que sem o amparo das ciências médica e biológica, jornalistas sensacionalistas não encontraram dificuldades para noticiar a nova descoberta como uma praga homossexual. Restringiram a doença a uma categoria sexual antes mesmo de descobrirem como ela era transmitida. Um feito que ainda hoje fere, não somente, a ética desses profissionais como, principalmente, a memória dos milhares de homens, mulheres e crianças que sofre(ra)m e morre(ra)m devido às complicações da doença. Não apenas no EUA, mas em todo o mundo. Indivíduos contamid@s pela exposição ao vírus e não por aderirem à práticas culturalmente marginalizadas.

O antropólogo Carlos Guilherme do Valle nos conta em artigo1 que somente depois da descoberta dos exames sorológicos e dos casos em crianças e mulheres que a imprensa adotou termos clínicos para identificar soropositiv@s. O que não a impediu de continuar explorando a imagem do aidético debilitado e agonizante na busca por audiência. Recorrendo ao horror e não à compaixão de seus espectadores. O resultado disso é que apesar de atletas como o Magic Johnson terem chocado o mundo por assumirem o contágio e terem mantido o referencial de saúde, a imagem que prevaleceu é a da AIDS como sentença de morte para grande parte do público exposta à cobertura da epidemia.

Ao moralizar a doença, a mídia impediu a pronta ação governamental no combate a doença, assim como também restringiu a sua realidade à vergonha e à comiseração. Afinal, como as criaturas sociais que somos, evitamos nos associar com o interpretado como contagiosamente condenável.

Ou seja, a restrição do enfoque da imprensa na época é um dos principais motivos pelo qual homens e mulheres heterossexuais se acreditam imunes ainda nos dia de hoje. Afinal, pais de família não podem ter a mesma doença que um “sodomita promíscuo”. A caracterização moral da AIDS fez com que em lugares na África exista a crença de que a cura é possível quando se transa com uma virgem e a infecção seja utilizada por milícias como arma de guerra. Limpar-se da doença e manchar a prole do inimigo podem ser vistos como o efeito colateral da demonização de algo tão natural e científico quanto uma gripe.

Se ainda temos que ser lembrados do combate à AIDS, certamente o mérito dessa invisibilização e apatia se deve ao julgamento negativo produzido pela mídia na primeira década. Um desserviço irreparável que contribui para as infecções que poderiam ser prevenidas como no caso da gripe suína, da dengue e da malária.

Com o sofrimento explorado pela mídia que o tornou os doentes intocad@s pela sociedade, os primeiros levantes contra a doença partiram da iniciativa de voluntários, homens e mulheres que apesar das manchetes, se solidarizaram com pacientes abandonados, em muitos casos, até mesmo pela família. E por boa parte desses militantes terem sido gays ou seus afetos que essa bandeira não deve ser esquecida pela comunidade LGBTQIA+. Pois a partir de então que a nossa luta exigiu não somente o direito de existir mas de ter nossa cidadania reconhecida. Na saúde e na doença. Sem indiferença e discriminação.

Contudo, apesar do enorme esforço político e ideológico de ONGs pelo mundo para humanizar a imagem do aidétic@ e ampliá-la além da lepra social, ainda presenciamos os efeitos da abordagem inicial da imprensa em cada novo diagnóstico. Pessoas que usam a confiança n@ parceir@ como preservativo, gente que prefere não fazer exame para não lidar com a possível culpa ou jovens que deixaram de levar a doença a sério pelo tabu presente nas narrativas de ficção e documentais etc.

Não importa o meio, o estereótipo persiste e ao invés de aproveitar o espaço para desconstruir o monstro criado, a mídia parece acreditar que por não tocar no assunto esqueceremos da sua responsabilidade na sua gestação. Humanizar as personagens reais e fictícias desse grupo de risco deveria ser o objeto moral de todo canal de comunicação que cometeu a violência simbólica de noticiar um evento biológico impregnado de sentenciamento moral. No entanto, infelizmente, estamos muito longe deve presenciar qualquer tipo de reparação ética por parte da imprensa, visto a cobertura indiferente que temos da doença sobre os males que assombram a “castigada” África.


VALLE, C. G. do. Identidades, doença e organização social: um estudo das “pessoas vivendo com HIV e
Aids”. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, v. 8, n. 17, p. 179-210, jun. 2002. Disponível neste link.

Previous Flossie, a Vênus de quinze anos
Next O melhor amigo de uma garota

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *