(in)visibilidade


Nessa semana passei pelo 01 de Dezembro, o dia mundial de luta contra a AIDS, com uma certa tristeza. Na última coluna falei sobre o #DesafioDoLaçoVermelho e vi esta e outras campanhas circulando pelas redes, com anônimos e famosos discutindo o HIV e emprestando visibilidade à doença. Essas iniciativas são ótimas. Informação sempre ajuda e para conter a AIDS, o melhor caminho ainda é a prevenção. Além do mais, precisamos diminuir o preconceito com os soropositivos, já que viver com o HIV geralmente representa um fardo pesado o suficiente.

LadoPositivo2Eu fiquei triste porque os laços vermelhos e papos sobre camisinha ficaram nessa semana mesmo. Todo dia sou lembrado do HIV quando soa o alarme que me lembra de tomar os remédios, então acho esquisito que o restante do mundo só pareça pensar nisso durante um dia.

 Acho triste porque durante o ano inteiro a realidade de quem vive com o HIV é a do preconceito e do medo que ele causa. Faz-se uma campanha de visibilidade mas eu me sinto cada vez mais invisível, e até desejoso dessa invisibilidade.

As pessoas não querem saber meu status. Elas querem que eu chegue no horário no meu emprego e execute minhas tarefas com precisão, sem me queixar de problemas físicos e principalmente de algum tipo de tristeza. É fácil julgar que eu não tenha motivo para ficar triste, uma vez que está tudo bem comigo e recebo um tratamento de qualidade gratuitamente. Talvez esteja exagerando, mas não sou obrigado a achar tudo lindo sempre.

Sou uma pessoa bem informada, que conhece a história política da AIDS e o tamanho de seu impacto para a comunidade gay. Eu tenho uma quantidade razoável de informações científicas sobre a doença e os tratamentos. Converso com amigos positivos e negativos sobre o tema e ainda tenho esse canto aqui, para escrever e pensar um pouco mais sobre essa experiência. E tem os remédios, o lembrete diário. Eu vivo com o HIV em uma relação muito íntima.

 Acho que o problema todo dessa semana foi esse. A condição de soropositivo é tão marcante em minha vida que esse vírus, uma coisa invisível, se concretiza pela ausência. Eu evito falar dele para amigos e potenciais amantes da mesma forma que tento esconder meu interesse quando o assunto “AIDS” vira tópico no trabalho, e nessa fuga toda eu acabo não conseguindo deixar de notá-lo.

Por isso estranhei essa semana de visibilidade. Foi quase como se o mundo estivesse de cabeça para baixo, zombando de mim. Como se tudo e todos fizessem questão de exibir uma fita vermelha e discutir esse assunto. É um pouco absurdo, porque sinto como se durante o ano todo as pessoas me fizessem esconder minha condição através da ameaça de exclusão, e agora ficassem esfregando isso na minha cara.

Sei que daqui a pouco tudo voltará ao normal e meu HIV voltará a ser visível apenas para mim. Quando isso ocorrer, voltarei a encará-lo pelo “lado positivo”. Minha dúvida agora, pensando em todos os rostos consternados e solidários que vi decorados com fitas vermelhas nessa semana, é sobre quantos deles são positivos também. Quantos fazem questão de esconder algo que é invisível?

Leia Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Agora você pode me mandar uma mensagem em poz@osentendidos.com.

Previous É verdade o que dizem sobre homens negros?
Next Bicha profissional

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *