Bicha profissional


É incrível como a sexualidade e as identidades de gênero são definidas culturalmente. Muito antes de ter tido qualquer pensamento mais erótico em relação a algum homem, minha vida parecia definida pelas tendências que meus comportamentos “estranhos” denunciavam. Eu desenhava tão bem, e só desenhava mulheres… Talvez me tornasse um estilista! Minha mãe perguntava se suas roupas estavam caindo bem ou se precisava refazer a maquiagem, e lembrava que eu estava gastando muito dinheiro em produtos para cabelo, quando finalmente decidi ser ator.

Cabeleireiro, maquiador, estilista, ator, artista… Sensível. Parece que eu não tinha saída.

Sempre me ressenti do fato de que seria eternamente bicha. Os meninos podiam sonhar em se tornar bombeiros, arquitetos ou astronautas. Eu também, mas percebi muito cedo que seria um “bombeiro bicha”, um “arquiteto bicha” ou “o grande viado do espaço”. Por essas e outras, resolvi ser uma bicha-bicha. Uma “bicha profissional”.

Quando era criança, fugia disso. Talvez fosse um bom estilista mesmo, já que sempre gostei de desenhar bonecas e de me vestir bem, mas não queria saber dessa “profissão de viado”. Por mais óbvia que minha homossexualidade pudesse ser, tentar escondê-la era algo importante para mim. Simplesmente, não tinha estrutura para assumi-la e lidar com ela de maneira direta. Por isso, sabia que não seguiria essas carreiras estereotipadas. Entretanto, volto a pensar na “mão invisível” da Cultura, onde as pessoas reconheciam e validavam essas possibilidades em mim, mesmo quando tentavam negar ou impedir minha sexualidade. Pensando bem, era uma coisa meio esquizofrênica.

Então eu resolvi ser ator, e todo o exercício de autoconhecimento exigido para representar outras pessoas permitiu que eu conseguisse – que ironia – me interpretar. Pela primeira vez, pude ser quem eu sou e viver em paz com isso.

Mas as coisas não foram tão simples. Eu me assumi e passei a ter uma vida sexual ativa, seguida de uma vida afetiva. Era o que chamamos de “bem resolvido” e me sentia feliz, mas ainda achava injusto que minha homossexualidade fosse a “coisa-primeira”, o primeiro dado que as pessoas tinham sobre mim. Achava muito estranho que existissem militantes e escritores dedicados às questões LGBT, pois me parecia que essas pessoas eram “viados profissionais”, que tinham se rendido à pressão externa e definiam suas vidas por esse estigma. Não queria isso para mim.

Há três anos e meio, criei Os Entendidos com a ajuda de meus amigos. Há quase dois anos, a Dando Pinta nasceu para ser meu espaço aqui. Embora a minha vida e minhas opiniões apareçam nos textos, especialmente para quem acompanha sempre, insisto que não falo muito de mim na coluna. Trato da homossexualidade masculina e tento fazer com que os textos sejam abrangentes, e por isso evito usar a primeira pessoa ou relatar muitas experiências, embora tenha feito isso bastante nas últimas semanas. É um espaço muito importante para mim, e que só me traz alegrias.

Aprendi muito com a coluna e entendi melhor meu lugar na sociedade e na sigla LGBT. Fico extremamente irritado quando alguém comenta como se fosse um trabalho leviano ou impensado, já que eu chupei muita rola li e estudei muito sobre masculinidade e homossexualidade para falar disso semanalmente. Musicais, vi todos – recomendo “A Noiva e o Preconceito” porque Jane Austen em Bollywood é muito amor. Rio muito quando me chamam de “blogueiro” como se fosse uma ofensa ou invalidasse o que digo, como se por acaso eu não soubesse que estou fazendo um post de blog. Que bom que avisaram, não? Bem, pelo menos os debates, as sugestões de pauta, as críticas construtivas, as perguntas e até os pedidos de ajuda me fizeram uma pessoa melhor, além de aumentarem a qualidade desse trabalho.

Sim, trabalho. Para sustentar o site, eu tive que procurar me qualificar e isso definiu meu campo de estudo. Administrar a página também não é fácil (deixo aqui um agradecimento público ao André e ao Leopoldo pela ajuda), até porque responder a todas as mensagens demanda tempo e disposição. Mas há também o reconhecimento.

As mensagens elogiosas e as propostas indecentes são ótimas, mas sempre que um texto é republicado por portais respeitáveis há uma mensagem de validação que diz “você está no caminho certo”. Aliás, é provável que o site vá migrar em breve para um desses portais, o que também é uma forma de reconhecimento. Ontem, participei de um evento sobre sexualidade em uma faculdade, e já é o terceiro evento do tipo a que as palavras escritas aqui me conduzem. Amanhã, estarei em Araçatuba ministrando uma palestra. Ano que vem, espero lançar nossa festa, uma loja, voltar a fazer vídeos, além de um documentário. Tudo isso sem atrapalhar a faculdade, até porque ela também alimenta essa coluna.

Então hoje,  vivo de ser viado. É minha paixão, meu sustento, e efetivamente meu trabalho. Ironicamente, terminei uma “bicha profissional” ao invés de um “profissional bicha”, como seria se tivesse seguido alguma carreira qualquer. E a melhor parte é que nunca fui tão feliz, já que apenas quando aceitei verdadeiramente  minha sexualidade e a identidade atribuída a ela, pude lidar com esse assunto e ver as coisas deslancharem para mim.

Permita-se. É fabuloso e hoje – mais do que nunca – eu posso garantir.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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