“Tu é gay que eu sei”


“Tu é gay, tu é gay que eu sei!”, entoavam em uníssono os garotos mais velhos do time de futebol. “Você é gay?”, perguntava a amiga bem-intencionada que queria ajudar e saciar a própria curiosidade. “E as namoradinhas?” era a saudação da tia-avó abusada, enquanto “amanhã você tem psicólogo” denunciava a preocupação de minha mãe. Todos apontavam e eu só conseguia me perguntar: Sou ou não sou?

“Saímos do armário” todos os dias. Sempre que andamos pela rua estamos nos assumindo como homens ou mulheres, pretos ou brancos, altos ou baixos, gordos ou magros… E também como “largados”, fashionistas, punks, góticos, sérios, alegres, hétero, gay, discretos, pintosas … Sem querer!

O que é mais engraçado na obsessão pela “saída do armário” – quando pensamos a experiência LGBT – é que os indivíduos são cobrados a assumir como identidade uma designação que não parte deles, mas dos outros. As pessoas apontam que alguém “é isso” ou “é aquilo”, transformam um conjunto de características em marcadores de uma identidade e voilà! “Nasce” um novo tipo de pessoa, e o indivíduo em questão começa a ser pressionado a se reconhecer – e a admitir isso publicamente – em dada categoria!

Isso acontece também com outros grupos, mas no caso específico da sexualidade temos a ideia de que os desejos considerados dissidentes constituem a “espinha dorsal” de uma pessoa. Será algum fetiche freudiano ou só opressão mesmo? Sim, porque a opressão começa nesse policiamento dos desejos, nessa necessidade de catalogação para fins separatistas – definir o “diferente” sempre define, também, qual é o “modelo”. O juízo de valor vem de brinde!

Quem nunca ativou seu “gaydar” para saber qual era a daquele gatinho meio tímido, que atire a primeira pedra! Não morremos de rir – ou até nos ofendemos – quando algum ator ou cantor obviamente gay desfila para a imprensa com a nova namorada? E quando a resposta aos “boatos” é na base do “respeito muito, tenho vários amigos gays”?

O que temos com isso? Quem ganha alguma coisa com essa cultura?

É óbvio que se assumir tem seu valor. A rejeição ainda faz parte da experiência LGBT, então é preciso dar visibilidade a essas identidades para que se possa fazer uso político dessa sigla. É paradoxal, mas para que um dia cheguemos à igualdade, precisamos reafirmar a diferença. É porque as pessoas LGBT são tratadas de forma diferente – até no fato de serem rotuladas – que podemos questionar essa percepção e então lutar para que seja alterada. E ainda que não seja possível erradicar o preconceito do mundo, podemos ao menos tentar mudar algumas cabeças e ver como isso se reflete em questões práticas e direitos civis.

Há também a necessidade de acolhimento, a satisfação de pertencer a um grupo. Existe uma “Cultura LGBT”, porque há uma série de fatos históricos e produtos culturais que dão um senso de unidade a um segmento diverso, que sem essa cultura só se reconheceria pelo estigma comum.

Essa dimensão política e cultural empresta uma nobreza à “saída do armário” que é quase mágica! Depois de um longo processo – muitas vezes doloroso – de investigação pessoal, a pessoa rompe o silêncio para se assumir como algo que vem sendo considerado indigno e sujo, que ainda é perseguido em diversas culturas, e que mesmo no Ocidente, ainda é tratado como inferior … Até que percebe que não é bem assim. Que existe esperança no fim do arco-íris e que ela não está só, que é parte de um movimento, e que talvez esteja até ajudando e inspirando mais alguém com seu ato de coragem. Fabuloso!

Entretanto, essa escolha é única. Individual.

Não podemos forçar alguém a se identificar dessa forma, então precisamos parar com a mania de tentar “descobrir” quem é ou deixa de ser alguma coisa. Ao fazermos isso, reforçamos a ideia de que um desejo ou orientação sexual precisa definir a pessoa, o que é péssimo. Tomar o sexo como identidade até pode ter valor, mas apenas quando essa escolha parte do próprio indivíduo. Se quem falou foram os amiguinhos, não tem graça…

É ótimo que sejamos capazes de transformar nosso rótulo em outdoor. Ninguém tinha perguntado, então agora não dá pra reclamar e falar em “ditadura” só porque temos turismo LGBT, Parada, revistas específicas ou cotas nas novelas. Afinal, foram os opressores que nos criaram quando apontaram o dedo.

Ao transformar o nosso “eu” em “tu”, “eles” criaram o “nós”.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir nossa página.

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