É verdade o que dizem sobre homens negros?


Texto original em inglês por Jeremy Helligar.

Quando o grupo Persuaders cantou “há uma tênue linha entre amor e ódio” no tema pop clássico- homônimo –  de 1971, eles demonstraram saber bem das coisas. Aparentemente, também existe uma sutil diferença entre fetiche e racismo descarado. Entre ser erotizad@ por ser exótic@ e ser estigmatizado pela mesmíssima razão.

Além da perda de anonimato, minha maior frustração em ser um afro-americano vivendo na América do Sul, Austrália e sudeste da Ásia – alguns dos lugares onde negros são não apenas minoria, mas raridades — foi o fato de que a partir do momento em que alguém me via, eles me vestiam de todos os antigos estereótipos sobre o homem negro, julgando-me conforme, presumo, fariam com qualquer outr@ negr@ que lhe cruzasse o caminho. No entanto, todos pareciam interessados em saber de uma coisa: “É verdade o que dizem sobre homens negros?”.

Ouvi essa questão inúmeras vezes, pelos três continentes que morei ao longo de sete anos, de inúmeras pessoas, de ambos os sexos que apesar de terem vistos muitos poucos representantes da minha cor, na vida real, demonstravam ter certeza de que sabiam a resposta.

Sexo, pela primeira vez com qualquer desconhecido, então, passou a se parecer mais com uma apresentação-teste [audition]1. O tamanho (do meu dote) começou a importar mais do que nunca quando me tornei o único negro em Bangkok, Melbourne e Buenos Aires (principalmente BA!). Em todas as cidades as quais passei a chamar de lar depois que deixei Nova Iorque em 2006. Ou eu atendia a fantasia do homem negro dotadão (imortalizado na foto de 1980 de Robert Mapplethorpe chamada “Homem em Terno de Polyester”), ou era automaticamente descartado. Foi um processo tão  arrasador que eu passei a duvidar do meu sex appeal. Será que tinha embarangado?

No segundo episódio do seriado Looking,  há uma cena em que os amigos de Patrick [protagonista] o contam que o descendente de mexicanos [Mexican-American] com quem ele estava se envolvendo provavelmente não era circuncidado, uma peculiaridade que desperta a curiosidade de Patrick e o leva a procurar avidamente por imagens disso na internet. Então, quando naquela noite, Patrick levou Richi pra cama, ele voou – afobadamente – pra cima do zíper de Richie. Porque ele precisava saber! Toda essa pobreza de espírito, assim como o olhar no rosto de Patrick, que poderia ser interpretado tanto como alívio como desapontamento, assim como a frustração de Richie ao notar que fora resumido ao prepúcio, foram todas situações muito, dolorosamente, familiares pra mim.

Pra mim, encontros se tornaram testes para filmes pornô, onde o diretor pede para que você remova as calças para ver se você é grande o suficiente para o papel. A partir do momento que eu me habituei a cena gay de Buenos Aires, onde o mito do negro dotado era mais proeminente, e me conscientizei de como os outros homens me viam e o que esperavam ao se aproximar de mim, me tornei cauteloso com praticamente todo e qualquer candidato. Contava os segundos até que me façam a original pavorosa pergunta: “É verdade o que dizem sobre homens negros?”.

Ainda assim, enfrentei bastante dificuldades para dizer não (não à pergunta mas ao cara em si). Depois de duas semanas conversando pelo MSN, me desviei dos avanços amorosos de Alvaro da maneira mais educada . Ele não me causou uma boa impressão depois do nosso primeiro encontro no Gaydar, mas ele insistiu muito na tecla de que ele era apaixonado por homens negros, como o último namorado dele tinha sido negro e blá blá blá…

Blé!

Toda vez que ele iniciava um chat comigo, e eu me dignava a responder, geralmente era de forma cordial mas sem o menor pingo de entusiasmo. Também ignorei o pedido de amizade dele pelo Facebook, mas ainda assim, persistentemente e passou a me perseguir quase que diariamente. Finalmente, um dia, cansado de poupar os sentimentos dele, disse-lhe sincera e curtamente que eu não estava interessado em sair com ele. Pra quê?! A resposta dele me paralisou. Ele disse: “Sos un negro de mierda que se cree que eres muy importante para hacerte el dificil, tendrias que estar recolectando algodon en Alabama, imbécil! Go home, fucking yankee nigger!2. Eu conseguia ler a raiva dele subindo a cada palavra, até inserindo o efeito poética da cena de um negro colhendo algodão.

Provavelmente ele incluiu a última frase porque, convenhamos, a intolerância racial é muito mais poderosa [para o autor] em inglês. Esse trecho define o todo. No entanto, intrigante e pertubadoramente, essa mensagem de Alvaro foi a única vez que eu o achei remotamente interessante. Mas continuo preferindo ficar com alguém chato a um racista.

Essa não foi a primeira, e nem a última vez que um pretendente argentino me agrediria dessa maneira. Suspeito de que se fosse eu branco, o Alvaro teria reagido mais amigavelmente. Mas como pude ousar – eu, um criolinho desgraçado, tão inferior a ele em tantas maneiras – rejeitá-lo?

Esse mesmo tipo de pensamento deve passar pela mente de estupradores que ignoram a vontade da pessoa com quem interagem. Há tantos paralelos que podem ser traçados com aos donos de plantations que levavam pra cama os mesmos escravos que açoitavam e desprezavam. Alvaro provavelmente teria sido um deles – forçando apenas os escravos homens a saciarem suas vontades.

Fiquei feliz em saber que não vivo em uma época quando eu posso rejeitar o interesse de um homem branco e sofrer abusos verbais somente em consequência. Infelizmente, muitas mulheres ainda não contam com essa  cortesia. Alvaro provavelmente se esqueceu de mim em uma semana, e seguiu perseguindo outros na internet, tentando transar com pessoas que ele no fundo despreza. Ainda não consegui bolar uma sentença de vida mais cruel do que essa.

1 [ o termo usado no original remete a teste de elenco mas pode ser usado para descrever exames orais ou qualquer teste de aptidão presencial através da performance do indivíduo].

2 [Você não passa de um negro de merda que se dá muita importância pra ficar se fazendo de difícil. Era melhor ter ficando colhendo algodão em Alabama, imbecil! Volta pra casa, seu crioulo ianque desgraçado!!]

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