Só negr@s são livres!


Fotografia: Ike Bittencourt

Sinhazinha Princesa Isabel alforriou nós. E desde então os nego somos tudo livre!

Livres para no olho da rua procurar: o que comer e um teto pra morar. Sem ajuda do governo ou de quem tanto nos fez sangue suar. Desde então conta-se com a liberdade para arranjar bicos e receber quanto e como quiserem pagar. No mercado de trabalho eternamente ser a ferramenta mais barata embora elementar.

Agora podemos competir com os de européia educação. Afastados da escola, de direitos e de ressignificação. Fadados a levar nos dentes nossa distinta qualificação. A perpétuamente ter que provar ímpia reputação, afinal não é de bom tom manifestar nada além de conformação. Cabeça baixa garante o sustento e estimação. Sendo o “quase da família” o maior status de validação.

O capataz foi deposto mas a vigilância permanece. Quem já ouviu o chicote da PM jamais esquece, enquanto nas grandes salas quase ninguém se compadece dos corpos estirados como porcos que a mídia prontamente embrutece. Omitindo a jornada e a luta de gente que de tudo carece. Oportunidade, justiça, dignidade, benesse…

Homens negros são livres para serem fortes, calados e viris. Fontes de fantasias bem-dotadas, chucras, embora servis. Os únicos machos a terem que as à autoridades baixar o nariz, senão é tapa na cara, tempor(r)ada na vala ou pipocada de fuzis. Braçal exemplo do que no país é ser trabalhador, improvável engenheiro, médico ou professor. Forjados pela indolente e pesada mão do europeu que de sua terra arrancou, e cuja força, por medo, estereotipadamente marginalizou.

Mulheres negras são livres, para sambar e seduzir. Insaciáveis e exóticas, nunca puderam ao branco resistir. E nem estes à elas, pois nunca foram tidas como donzelas ou apreciadas por falas bellas. As nega nasceram livres pro sexo. Casamento ou compromisso, portanto, é completamente descabido e sem nexo. Costumeiramente ingratas, suas reivindicações também são livres para serem encaradas como excesso.

Crianças pretas são livres para abandonar a escola. Malabaristas de sinal, baleiros de bar ou preguiças pedintes de esmola. Garotos negros tem total licença pra sonhar em se tornarem grandes jogadores de futebol. Bola na rede ou canto de rouxinol:.as maiores chance de conquistarem um respeitável lugar ao sol. Meninas negras estão liberadas para cuidar do lar, ou quem sabe um dia uma grande mulata virar. À cama despir ou arrumar. De preferência bem quietinhas pra ninguém importunar.

Descendentes de escravos hoje são livres pra se adequar a mesma cultura que da África os arrastou, os tratou como mercadorias, animais e por mais de três séculos vilipendiou. Para tentar prosperar segundo as vontades de quem já foi sinhô, de acordo com as mesmas regras e a inconsciência de que a luta ainda não terminou.

O direito de proceder conforme nos pareça, ainda parece contrariar os interesses das mais poderosas cabeças. Ainda faltam muitos direitos ao negros para garantir uma negra cidadania. Cotas são não mais que o início da reparação à histórica agonia. Uma ameaçada pena dourada nos tirou dos confins da senzala, debaixo de choro, vela e trocado em bala, mas ainda assim a melanina continua uma sentença que a muitos cala, por receio de repre(e)nderem quem contesta as, agora, invisíveis correntes em sua nova escala. Amarras sociais, românticas, políticas, econômicas e profissionais. Ainda há um longo caminho até podermos dizer que somos todos de fato libertadoramente iguais.

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