O apocalíptico silêncio dos iguais, em “Admirável mundo novo”


Deixai, ó vós, que entrais, toda a esperança!

(Canto III, Inferno, A Divina Comédia, Dante Alighieri)

A citação da inscrição do portal do Inferno, lida por Dante antes da sua descida e posterior subida ao céu, serve-nos como uma advertência para a constatação apocalíptica de que o fim da família, da moral e dos bons costumes acabou. Sim, acabou e não acabará como profetizam os radicais religiosos.

Pelo menos essa é a realidade do mundo e de nossa sociedade no livro “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, uma das principais obras antiutópicas do século XX, de acordo com a orelha de capa do romance.

O ano é 632 d.F (depois de Ford) e o mundo vive sob o slogan “comunidade, identidade e estabilidade”, o qual serve como indicador ideológico desse novo mundo. A comunidade é formada por sujeitos com identidade justamente estabelecida a fim de manter a sua estabilidade. Assim, a retidão da comunidade é o objetivo final da nova organização humana.

A fim de se alcançar essa estabilidade, foi-se necessário remodelar a forma como o homem se organizava socialmente. A ciênca teve um papel extremamente importante nesse processo, pois permitiu que a genética fosse elevada a tal nível de instituir mudanças que influenciam e definem o papel social de cada um, desde o momento de sua concepção.

Contudo, estabelecer alterações genéticas não confere a estabilidade da comunidade como se deseja, já que não somos sujeitos tão somente biológicos, mas culturais e, um dos fatores mais influentes culturalmente é a organização familiar. Deste modo, a manipulação genética vem não só de encontro a produzir seres mais adequados pra cada função a que são destinados, mas o de cortar vínculos que nos humanizam e que também nos tornam imprevisíveis, egoístas , apaixonados e cheios de desejos – e que são construídos em grande parte no convívio familiar.

Assim, a família se torna algo imoral, não desejável e se torna mesmo algo que desperta o nojo nessa nova sociedade em que os laços que se estabelecem entre as pessoas são os mais superficiais possíveis. Uma sociedade na qual todos são de todos e que a monogamia deve ser evitada, por ir contra a natureza desse novo sujeito.

O interessante é que nessas condições, a família acaba justamente por seu caráter de construção identitária, cultural, em um mundo onde as guerras e conflitos se proliferam como uma peste, fruto da ideologia capitalista liberal.

Entretanto, mesmo com todos os controles existentes, algumas coisas permanecem, como o incentivo ao consumismo, a divisão de classes, embora trabalhada como algo desejável e imutável, por meio de técnicas de adestramento moral feito desde a mais tenra idade desses homens e mulheres, que vão internalizando essas regras de conduta e constituindo assim o modelo de condicionamento que substitui a família, e outras instituições, tal qual a Igreja e práticas como a leitura e toda produção artístico-filosófica.

Sim, viadxs, não fomos nós que acabamos com a família, mas o nosso próprio sistema ideológico, que, ao contrário do que muitos poderiam pensar, não é substituído por um modelo comunista. Sim, também os comunistas não têm nada a ver com isso. A ditadura que se institui não é Comunista-Gay-Femi-proletária ou sei-lá-o-quê, mas um híbrido de valores capitalistas e comunistas. Isso se percebe, por exemplo, nos nomes das personagens. O novo “deus” é Ford, o cara da produção em larga escala que transforma os seus funcionários em especialistas de apertar parafusos, como a personagem de Chaplin no filme “Tempos modernos”; ou o sobrenome Marx, de Bernard (um dos personagens principais) e que causa bastante problemas (uma crítica talvez à ideologia Marxista ou ao capitalismo, já que ele se comporta de modo individualista?).

Porém, mesmo que não sejamos os culpados, não podemos nos sentir tão aliviados em relação a obra, isso porque não existimos nesse “Admirável mundo novo”. Todos são de todos, mas esses todos são: de um lado mulheres e de outros homens, que se comportam com uma “promiscuidade exemplar”, como manda o figurino.

A única possível sugestão de homossexualidade na obra acontece na passagem em que estudantes, que visitam a o Centro Inglês de reprodução humana, presenciam um garoto ser chamado a atenção por não corresponder às investidas de uma menina atrás da moita.

Num “Admirável mundo novo” não é apenas a família, a religião (tal qual a conhecemos e concebemos) e toda a produção artístico-filosófica que tem a sua existência “silenciada”, mas também toda a diversidade de identidade sexual. Um admirável mundo novo em que tudo é acéptico e previsível. Um admirável mundo novo sem esperança pros LGBT.

Nota: Não se pretende aqui criticar a obra por não ter personagens LGBT, porque ela não tem a obrigação de tê-los, muito embora ela nos permita discutir e pensar o modo como reconstitui em si o mundo e as possibilidades de mudança que podemos tomar a partir do que lemos. 😉

Admirável mundo novo

Autor: Aldous Huxley
Editora: Globo – Biblioteca Azul
Ano: 2014
Páginas: 314
Links para compra e preços*: Saraiva R$ 37, 91; FNAC R$ 25,90; Submarino R$ 28,90Livraria Cultura R$ 39,90

*Os preços são do dia da consulta 19/11/2014.

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