O Mau Agouro e a Transposição de Papéis de Gênero em Acauã


O CAPITÃO JERÔNIMO FERREIRA, morador da antiga vila de S. João Batista de Faro, voltava de uma caçada a que fora para distrair-se do profundo pesar causado pela morte da mulher, que o deixara subitamente só com uma filhinha de dois anos de idade.

Perdida a calma habitual de velho caçador, Jerônimo Ferreira transviou-se e só conseguiu chegar às vizinhanças da vila quando já era noite fechada.

Assim começa Acauã, um dos textos presentes na coletânea Contos Amazônicos, do Inglês de Souza, um paraense do município de Óbidos que, além de jurista, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, sendo a sua cadeira a de número 28.

Acauã, um conto que se encontra inserido na proposta naturalista, é do tipo fantástico. O capitão se perde na volta de uma caçada e só chega a vila onde mora quando já é noite, como podemos ler no excerto que abre o nosso texto. A noite é o ambiente espaço-temporal para que coisas fantásticas aconteçam, lugar de sua realização. Assim sendo, uma grande tempestade se anuncia, com raios, trovões e toda uma movimentação que não parece ser natural.

O capitão, em meio a todo esse horror, chega a porta de sua casa e se depara com um ave, a qual ele enxota. Um barulho vem do rio e ele, com a curiosidade desperta, vai averiguar o que é. Percebe então um pequeno embrulho e dentro dele um bebê, que ele adota como sendo sua filha – a quem dá o nome de Vitória.

Vitória e Aninha (sua outra filha) passam a ser criadas como irmãs, muito embora todos saibam – e até seja mesmo evidente para os que não – todas as diferenças entre ambas. Enquanto Aninha é tida como graciosa, alegre e cheia de qualidade tidas como femininas, os traços de Vitória evidenciam, ao julgo dos demais, uma masculinidade, carregando traços de força bruta, que fazem as pessoas não sejam tão simpáticas como são com a outra.

Assim os anos vão passando e Ana começa a despertar o interesse dos homens, recebendo propostas de casamento, as quais ela aceita para logo em seguida desistir sem nenhuma explicação plausível. Até que em uma das desistências da filha, Jerônimo Ferreira se aborrece e decide que o casamento irá sim acontecer, que não permitirá que Ana brinque com os sentimentos de mais um rapaz.

Enquanto Vitória passa a ficar cada vez mais arredia, Aninha demonstra ficar cada vez mais desbotada de vida, quieta e silenciosa, fato este que não foge dos olhos atentos do pai e dos habitantes da vila, bem como o comportamento estranho em relação aos rapazes que lhe propõem casamento.

No dia do casamento, Vitória não comparece e Ana encontra-se muito tensa. Eis que então Vitória em fúria demoníaca chega ao local da cerimônia. Ana tem um acesso, cai no chão e debate-se. Morre.

A princípio, não se verifica, como podemos ver no resumo que tentei aqui escrever, qualquer relacionamento homossexual, muito embora alguns acreditem que, o que Ana e Vitoria tinham, o modo como se comportavam uma com a outra, deixe traços para tal interpretação, justamente pelos aspectos de “masculino” e “feminino” que elas evocam e toda uma teoria psicanalítica envolvendo esses aspectos e desejos que eles suscitam – numa transposição de um relacionamento heterossexual, com papéis de gênero imutáveis de masculino e feminino e o que se espera de cada um, para o universo de relação homossexual.

Se seguirmos esse caminho, a explicação possível seria o de certa vampirização, já que à medida que Ana definha, Vitória começa a apresentar comportamentos suspeitos para uma moça “normal” da vila, porém sem os elementos de sedução com os quais estamos acostumados nessas ocasiões.

Contudo, é preciso prestar atenção em outros elementos constitutivos da narrativa, sendo um deles o nome do título do conto, que só resgatado ao final, quando Ana, antes de morrer, grita “acauã” diversas vezes.

Acauã é o nome de uma ave de mau agouro que se alimenta de serpentes. Uma ave é afastada da soleira da porta da casa de Jerônimo, assim que ele chega depois da caçada. O rio estava turbulento e isso pode evidenciar os movimentos da cobra grande que encontra-se no fundo do rio, como se crê e ainda se conta em muitas regiões ribeirinhas da Amazônia.

Ora, logo depois que a ave é expulsa, uma criança surge na beira do rio. Criança essa que é ninguém menos que Vitória com traços ofídicos à porta da Igreja, no dia do casamento de Ana, que parece ter sido vítima dos maus agouros de Acauã (por meio de possessão, quem sabe?). Talvez por este não ter conseguido realizar o seu propósito de se alimentar da cobra daquele rio, na noite em que Vitória foi encontrada. Aliás, o nome Vitória é bastante revelador, já que é um possível indicativo da vitória da cobra sobre aquele que dela se alimenta, Acauã.

 O conto pode ser encontrado em pdf aqui.

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